BORAT: O 2º MELHOR REPORTER DO GLORIOSO PÁIS CAZAQUISTÃO VIAJA À AMÉRICA:


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Original: Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan
País: EUA / Inglaterra
Direção: Larry Charles
Elenco: Sacha Baron Cohen, Ken Davitian, Luenell e Pamela Anderson.
Duração: 84 min.
Estréia: 23/02/07
Ano: 2006


"Borat" e a lógica do quanto pior melhor


Autor: Cesar Zamberlan

“Borat” é um filme deliciosamente irresponsável, mas essa liberdade absoluta e transgressora no fazer rir acaba, num determinado momento, voltando-se contra o filme e colocando-o em xeque. A que serve esse discurso demolidor que não deixa pedra sobre pedra? A que serve essa transgressão? Existe alguma lógica, algum sentido político por trás dessa metralhadora chamada Sacha Cohen? Ou o sentido do filme é mostrar que nada faz sentido e dessa forma, servir-se da desgraça total, para ridicularizar os ridículos e amealhar uma fortuna de bilheteria, fazendo as pessoas rirem de si mesmas: cristãos de judeus, judeus de cristãos, brancos de negros, negros de brancos e assim por diante?

Pois bem, “Borat” incitará grandes discussões e em diversos níveis, do gostei e não gostei até discussões de caráter mais formal. Muitos sairão indignados do cinema e outros sairão em estado de catarse ao verem que ainda é possível fazer a piada mais maliciosa e sob tema tabus como a religião, política, homossexualismo, feminismo etc, mesmo hoje, quando vivemos sob a ditadura do politicamente correto.

De uma forma ou de outra, a censura ao filme - no sentido de crítica e não de proibição - ou a exaltação deste, gerada pela sua atitude, supostamente, corajosa só esconde aquilo que há de mais importante em “Borat” e que fica no meio do caminho, na terra de ninguém entre a névoa que cegará os ofendidos e a fumaça de rojão que inebriará os festivos. “Borat” é um sucesso e longe de querer construir qualquer tipo de pensamento, aposta na crise, na dissolução, na degradação para atingir seu objetivo que não é outro senão dinheiro e o faz de maneira muito inventiva e bem articulada.

Sacha Cohen é o segundo jornalista mais bem sucedido do Cazaquistão, país que nada representa no nosso imaginário e mais que isso, é fruto da dissolução de uma grande potência, essa sim outrora cheia de imagens e sentidos. Mas esse passado agora é ruinoso e não se consegue enxergar nestes países os cacos daquilo que um dia foi a utopia comunista. Sacha é então resultado de um processo de dissolução, representa essa dissolução, e como vem de lugar nenhum nada tem a perder, é um órfão, apátrida, que quer conhecer e entender um lugar que, em tese, é oposto ao seu e mais do que isso representa o “paraíso”.

Mas antes Borat se desnuda perante a câmera, mostrando seu primitivismo de pescador ridículo, sua família e vizinhança desestruturada, sua estupidez e ingenuidade, em ritmo da anárquica música cigana, para que, ao atravessar o oceano, rumo a América, nos coloquemos ao lado dele, sejamos simpáticos a este triste ET e incorporemos sem contestar o que ele vê e como ele vê.

Nesse sentido, o falso documentário, ele é repórter de uma TV do Cazaquistão e fará um documentário com dinheiro do Governo daquele país, serve como estratagema perfeito ao filme, pois ao ocultar o dispositivo, a câmera do documentário dentro do filme, o diretor nos coloca sob um mesmo e único ponto de vista narrativo. Se junto com Borat houvesse um cinegrafista, fazendo um documentário dentro do filme essa relação se daria de outra forma, seria mediada e não se teria o mesmo efeito, a mesma cumplicidade de olhar. Ao falar para a câmera, dele e nossa, Borat fala diretamente para nós.

Curioso é que a forma de fazer o filme, de retratar pessoas e costumes em pouco difere, por exemplo, de um Michael Moore, mas neste o dispositivo e o objetivo do documentário estão tão implicados e escancarados que a cumplicidade se dará se houver por parte do espectador um desejo nesse sentido. Independente da manipulação de uma entrevista ou situação, as cartas nos filmes de Moore são colocadas na mesa, todos o conhecem.

Já em “Borat”, a figura cômica do jornalista não está muito preocupada com qualquer tipo de implicação política ou ideológica, ela parte da premissa da dissolução, do quanto pior melhor, e não muito diferente de um Silvio e Vesgo parte para cima dos entrevistados visando o vale tudo do humor. Mas, diferente destes, tem a seu favor o disfarce do personagem e a boa vontade dos anfitriões que se apresentam tais como são frente a um personagem ficcional que, mal sabem eles, foi criado para ridicularizá-los.

Existe um mecanismo muito perverso em “Borat”, mecanismo que só não é totalmente execrável porque vai dialogar com pessoas igualmente execráveis na naturalidade com que defendem seus questionáveis pontos de vista. A cena do rodeio, a melhor do filme, exemplifica essa situação. Esse mecanismo acaba mascarando e quase justificando atitudes levianas do personagem de Sacha Cohen na sua veste de palhaço ingênuo.

Pamela Anderson e sua imagem ambígua, aparência da beleza e signo da perversidade e luxuria, mais que representar uma metáfora do paraíso que Borat procura, mais do que ser uma Eva manchada pela imagem do pecado, terá no filme a função de humanizar o personagem de Borat e sua busca. Para ele, é natural conquistá-la usando como meio a força física, para nós, ocidentais, o dinheiro, o poder, o acúmulo de capital substitui a força física. Se o objetivo é o mesmo, a forma de chegar a ele é que varia, mas a relação de poder, de caçador e presa, é igualmente primitiva (A mesma relação se dá na possibilidade possuir uma arma x possuir um urso para se defender).

Borat acaba levando para casa como troféu, como lembrança de viagem, a prostituta. Tal qual a imagem de um postal, ela é a representação do que há de melhor do lado de lá. Por se assumir como mercadoria, é ela a única que traz a verdade, verdade que irá revelar aos aldeões na cena final. Essa é a iluminação de Borat, o falso ingênuo que no seu falso documentário traz do falso paraíso, da América, a essência do capitalismo: o ser humano enquanto produto.

Aberto a muitas leituras, o grande problema de Borat é que ele é uma figura ambígua, anfíbia, que ora transita num mundo cruel a se revelar diante de sua ingenuidade primitiva - fato que é passivo de compaixão se pensarmos no personagem ficcional - e ora encarna o repórter oportunista, criador de pegadinhas que é Sacha Cohen – o personagem real, naquilo que ele tem de mais detestável e lucrativo.

Borat, personagem e filme, pode até ter seu encanto, mas sua construção é reflexo de um mundo tão cruel quanto aquele que ele ironiza.
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