O MESTRE DAS ARMAS:


Fonte: [+] [-]
Original: Huo Yuan Jia
País: China
Direção: Ronny Yu
Elenco: Jet Li, Shido Nakamura, Yong Dong, Hee Ching Paw, Betty Sun, Nathan Jones.
Duração: 103 min.
Estréia: 16/02/07
Ano: 2006


Artes de primeira, roteiro de segunda


Autor: Fábio Yamaji

A Ronny Yu foi confiada a direção de dois filmes dos mais fadados ao ridículo e ao fracasso na última década, por se tratarem de seqüências de gosto e/ou intenção duvidosos, apesar da possibilidade de se tornarem cult. São filmes protagonizados por personagens bastante queridos do grande público: Chucky, na terceira continuação de “Brinquedo Assassino”, “A Noiva de Chucky” – em leitura descaradamente cômica, numa paródia ao clássico “A Noiva de Frankenstein”; e Freddy Krueger e Jason Vorhees no então aguardadíssimo “Freddy x Jason”, histórico encontro entre os dois maiores ícones do terror dos anos 80. Vindos de continuações desonrosas, estes “ídolos pop” recuperaram suas reputações pelas mãos de Ronny Yu. “A Noiva de Chucky” traz uma parceira à altura de Good Guy, em crueldade, feiúra e sarcasmo – além de mostrar uma das cenas mais absurdas da Sétima Arte. E “Freddy x Jason” promove um digno e exaustivo embate entre os assassinos de Elm Street e Crystal Lake, com vitória merecida de Mr. Vorhees (os DVDs destes filmes ocupam lugar especial na minha videoteca).

Nesta nova empreitada, o cineasta chinês assume novo desafio: levar às telas a história de um personagem real, o lendário mestre das artes marciais Huo Yuanjia, que se tornou o lutador mais famoso em toda a China na virada do século XX. Uma história dramática e edificante, tratada com requintada reconstituição de época e empolgantes seqüências de luta. A equipe do filme é de primeira: Jet Li já quebrou ossos em “Herói” e “Romeu tem que Morrer”, Yuen Wo Ping coreografou as lutas de “Matrix” e “Kill Bill”, Shigueru Umebayashi musicou “Yumeji” e “2046”, Bill Kong produziu “O Tigre e o Dragão” e “Herói”. Esse time garante momentos espetaculares durante o filme todo, com muita criatividade, fôlego e bom humor.

Pena que os roteiristas não compartilhem desta competência. Desenvolvendo-se de forma burocrática e previsível, a saga de Huo Yuanjia merecia abordagem mais elaborada e menos maniqueísta. Um personagem tão complexo não deveria ser tratado com tamanho esquematismo. Faltou sensibilidade. Nos diálogos, primários, chega-se a ouvir chavões do tipo “A vingança só traz mais derramamento de sangue”. Coisa triste. O nível B da escrita ancora uma produção com pretensões muito maiores de chegar ao topo.

Um viés interessante tocado no início do filme, e logo depois abandonado, é a ocidentalização da até então intacta milenar tradição chinesa. A presença de estrangeiros em Xangai no início do século XX serve apenas como ponto de partida e pretexto para o fechamento do filme. A oportunidade de posicionar “O Mestre das Armas” num contexto histórico, além da presença de seu protagonista, é desperdiçada sem a menor cerimônia.

Em meio a tanto capricho em reconstituir ambientes, figurinos e ruas inteiras, parece que só interessa mesmo o quebra-pau. Atração à parte, negativamente, são as atuações dos atores mirins: péssimas - carregadas de artificialismo e trejeitos de animê. Causam aquela desconfortável “vergonha alheia” . Ingenuidades como essa só aborrecem (ou provocam risos involuntários), e quase comprometem um trabalho que supostamente tem algo mais a mostrar.

Enfim, eu não diria que Ronny Yu tenha errado a mão. O que aconteceu é que, entre outras falhas, Huo Yuanjia não chega aos pés de Chucky.

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