CARTAS DE IWO JIMA:


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Original: Letters from Iwo Jima
País: EUA / Japão
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shido Nakamura.
Duração: 140 min.
Estréia: 16/02/07
Ano: 2006


"Cartas de Iwo Jima": mais do que simplesmente o outro lado da história


Autor: Cid Nader

E vem uma segunda parte da mesma história. Rodada simultaneamente, na mesma localidade, contando a mesma tragédia só que dessa vez priorizando o outro lado dos dois envolvidos mais diretamente.

De um lado os norte-americanos, tentando tomar o verdadeiro enclave em que se transformou a ilha japonesa como última linha de defesa dos defensores da terra do sol nascente e de seu Imperador/Deus. Clint foi lá, filmou e montou seu "A Conquista da Honra", com toda a bagagem de quem conhece e analisa a sociedade e o povo de seu país já há muito tempo, apostando mais em mostrar as verdadeiras razões através das quais se constrói o "herói", do que em denunciar o embuste do "símbolo" usado como marketing – no caso do símbolo, tratava-se da famosa e fabricada fotografia de uma bandeira norte-americana sendo hasteado em um monte da ilha; e no caso do "herói", chegando à conclusão de que os que lutavam e se entregavam, o faziam pelos amigos e companheiros, não pela pátria institucional (aliás, nesse caso, somente para reforçar um mote de toda a obra do diretor, que tenta enxergar a retidão e justeza de seu povo como sua maior virtude; sempre denunciando, paralelamente, o lado brutal e injusto que também compõe uma outra faceta bastante evidente dessa mesma sociedade). Portanto, em "A Conquista da Honra", Clint navegou por mares conhecidos e familiares.

Mas aí veio essa segunda parte, essa segunda versão, esse outro lado sendo privilegiado. Já causaria estranheza a razão de vê-lo sendo realizado a quem só pensou em "A Conquista..." como um filme preocupado em denunciar a estratégia de marketing utilizada pelo governo ianque aproveitando-se da história da bandeira. O fato de ele resolver fazer uma espécie de versão mostrando o lado da "segunda parte" envolvida já seria suficiente para desmontar essa "análise conclusiva simplista demais"; para uma obra que na realidade tem muito a mais dizer em seus sub-textos. Pensar que Clint teria resolvido fazê-la por exibicionismo não cabe na cabeça de qualquer cinéfilo razoavelmente bom das ventas – não combina com o diretor essa imagem de "virtuosista"; ele é um homem muito sério.

Mas aí veio essa segunda parte, e a obra inicial do duo que parecia insuperável pelo que captou e "observou" - pelo que concluiu, pela já evidente e reconhecida capacidade do diretor em saber tratar quando o assunto é a sua nação – ganhou, no mínimo, uma parceira do mesmo nível de excelência. Mas aí veio essa segunda parte e Clint resolveu tomar para si definitivamente o posto de maior diretor americano em atividade, deixando seu eterno concorrente nessa saudável disputa um pouco para trás. Fazer duas obras utilizando o mesmo tema, os mesmos recursos técnicos, as mesmas localidades, aproveitando o tempo para filmar um pouco a mais a fim de poder construí-las para evidenciar dois lados distintos, e trazendo como resultado outro filme inesquecível, já seria suficiente para dar alguns corpos de vantagem a qualquer corredor em relação a um concorrente forte. Acontece que o sr. Eastwood resolveu se superar de vez e não ficou satisfeito em somente abrir alguns poucos corpos de distância. Acontece que o grande diretor resolveu ser mais ousado ainda e adentrou o mundo nipônico com sutileza e sagacidade dignas de gênio.

Gênio eu já sabia que ele é. Mas com que direito um estrangeiro pode tentar entender o âmago de uma civilização como ele o fez? Quem ousaria tentar entender como os japoneses devem ter se comportado quando enclausurados (enterrados, para ser mais exato) naquela ilha esperando a morte certa chegar? É certo que Clint não é um deus que age somente por sua intuição e capacidade de onisciência. É certo que roteiristas servem para dar esse sustento de informação – no caso desse filme, Paul Haggis ganhou o auxílio de Íris Yamashita e as memórias do general Tadamishi Kuribayashi -, mas não é quase sempre assim que funciona o cinema? E em quantas vezes o resultado pode ser considerado satisfatório? Clint foi muito mais longe do que tentar fazer um filme de resultados satisfatórios. Ele "entendeu" um outro povo que não era o seu – o “inimigo", para complicar um pouco mais.

O filme capta e repassa as complexidades de pessoas em situação limite. Escapa da mesmice que entende o Japão como um país de comportamento "único", obediente, frio em seus cálculos, de olhar "matemático" e exigente quando espera a resposta de seus filhos. Em "Cartas de Iwo Jima", vemos que o modo de pensar e agir dos japoneses tenta sim caminhar por essa exatidão lógica pela qual são conhecidos. No início agem de forma óbvia nos preparativos para a espera do inimigo que desembarcaria. Mas o filme já começa mostrando alguns personagens que fugiam a um comportamento padrão/obediente e não contestador, sendo que a principal figura para representar esse outro lado é a de Saigo (Kazunari Ninomyia), um padeiro que foi à guerra completamente contra a vontade, que deseja durante o tempo todo voltar á mulher e à filha, que tem saudades de sua padaria, que insiste em escrever cartas e que não deseja ser herói doando sua vida pela pátria institucional ou pelo Imperador. O filme revela também a figura forte e importante do general Kuribayashi (Ken Watanabe), que chega para revolucionar o método de defesa e o modo de encarar seus subordinados (traz consigo um misto de comportamento herdado nos tempos em que viveu nos Estados Unidos e de comportamento tradicional que não nega as raízes); ele é frio no modo de observar as possibilidades, e também "quente", como os japoneses também são, mas muito pouco observado por essas bandas do planeta.

E aí funciona maravilhosamente o senso de observação do diretor. Quando ele mostra as reações de inveja que ocorrem quando da chegada de Kuribayashi com seus métodos "americanizados"; quando ele mostra a frieza "esperada" de um sargento que insiste em punir homens debilitados pela desinteria galopante que vai se apossando da ilha; quando ele insiste, em contrapartida, nas figuras de alguns soldados que se recusam a abandonar tudo mecanicamente e agem de forma a imaginarem-se fora dali a qualquer custo; quando observa – como se fosse um soldado japonês - os americanos como vultos do mal vindo para a destruição e quando os contrapõem em algumas poucas situações de interação com os nativos (todas muito fortes e de resultados diferentes em sua composição); quando revela a figura do barão Nishi (Ryo Kase) um ex-campeão olímpico de equitação mais deslocado do que nunca naquele mundo e por outro lado mais disposto à batalha e ao sacrifício do que muitos que não viram o mundo e glória como ele (e nesse contraponto de comportamento Clint novamente mostra sua ousadia em tentar entendê-los, porque mostra que o "querer" viver é muito particular de cada um e não é necessariamente maior em quem viu as belezas e viajou, do que naquele que nunca saiu de sua aldeia) ...

O painel elaborado pelo diretor se completa dentro de um dos filmes mais japoneses que já vi. Os personagens de Eastwood têm a gama de complexidades revelada como um Ozu fazia quando botava seus homens bêbados saindo de um bar após um dia de trabalho. Ele conseguiu captar essas pequenas diferenças e compreendê-las. Filmou com a capacidade de sempre, com seus planos devidamente bem pensados e com o uso de uma espécie de PB esmaecido mesclado a alguns "toques" esporádicos de cor. Chega a criar uma verdadeira pintura num belo momento em que se observa a chegada dos navios inimigos do lado de fora de uma das casamatas. Quando une os dois filmes, o faz na repetição de algumas cenas comuns, só que sentidas pelo outro lado (há o momento dos suicídios por granada, o do lança chamas, o do soldado que é capturado...),e aí mais uma de suas aulas técnicas está dada.

O filme talvez abuse um pouco da música tocada por uma corneta quando vai se aproximando de seu final. Abusa também na utilização de sangue que jorra e corpos mutilados, mas aí já o imagino um tanto próximo da composição estética de Chuva Negra de Shohei Imamura (1989), que mostrava corpos em decomposição de um modo muito seco e chocante, numa situação decorrente da queda bomba atômica (aliás, esse filme de Imamura, por alguma razão que não consigo definir mais razoavelmente, sempre me tocou como uma das obras "mais japonesas" que já vi). "Cartas de Iwo Jima" consegue ser mais um libelo extremo contra a guerra e sua insanidade e ao mesmo tempo revela que não há um modo japonês de ser, mas algo muito mais diverso e complexo. E ele conseguiu pescar isso.
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O outro lado, a mesma angústia