PECADOS ÍNTIMOS:


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Original: Litlle Children
País: EUA
Direção: Todd Field
Elenco: Kate Winslet, Jennifer Connelly, Patrick Wilson, Jackie Earle Haley, Gregg Edelman, Noah Emmerich, Phyllis Somerville, Mary B. McCann, Jane Adams.
Duração: 130 min.
Estréia: 09/02/07
Ano: 2006


Já pra casa, crianças!


Autor: Cesar Zamberlan

“Little Children” de Todd Field baseado no livro homônimo de Tom Perrota recebeu o bizarro nome por aqui de “Pecados Íntimos”. O livro, lançado pela Editora Objetiva, teve melhor sorte e foi traduzido por “Criancinhas”.

Não vi “Entre Quatro Paredes”, filme anterior de Todd Field, mas me impressionou num primeiro momento de “Little Children” - e ressalte-se o primeiro momento -, a habilidade do diretor em construir seqüências e planos, a forma como usa o som, a relação interessante entre câmera e personagem e a narração em off, ou seja, a forma como o diretor envolve o espectador na trama e como retrata o universo que explora: os quarteirões de um bairro composto por casais belos e bem sucedidos onde a aparente paz e bem estar esconde toda sorte de frustrações, gerando seres “perversos” - entre aspas mesmo, ou usando a definição do dicionário Houaiss, que agem em desacordo com as regras e costumes.

A aspas no perverso e a ressalva no “num primeiro momento” se explicam porque Todd Field acaba caindo na tentação de fazer um julgamento moralista dos seus personagens, destruindo todas as boas seqüências e planos que construiu, como, por exemplo, a seqüência na piscina, transformando a até então aceitável e onisciente narração off num juízo final sobre os seres que o filme acaba depois colocando contra a parede, ou melhor, estatelado no chão como ocorre com o principal personagem masculino que também se chama Todd.

Mas a máscara do diretor cai mesmo é na seqüência que Kathy, esposa de Todd, edita o seu documentário. Ela está preocupada com o futuro do seu casamento e com o insucesso do marido. Por outro lado, a ternura de Todd com o filho do casal a comove e a faz ver o quanto o seu trabalho a afasta da maternidade e casamento. Nesse misto de emoções, temos as cenas do documentário dela, sobre crianças norte-americanas que ficaram órfãs, pois seus pais estavam lutando “bravamente” no Iraque. Ela frisa a imagem da criança órfã, a câmera fica no rosto dela e no corte seguinte passamos a uma seqüência na qual seu marido Todd transa com Sarah.

“Little Children”, difícil chamá-lo de “Pecados Íntimos”, dança justamente quando fica clara essa tomada de posição do diretor, quando passa a julgar os seres que tão humanamente retratou. Tanto Todd quanto Sarah, que traem Kathy e Richard, não estão inseridos na lógica do capital, não trabalham e tem tempo para a traição e “perversão”. Ele vive às custas da mulher que trabalha para que ele estude para passar num concurso para se tornar advogado, coisa que ele não faz. Sarah, é metida a feminista, diferente das demais mulheres que ali estão, uma Bovary da sua época que apesar da mudança dos tempos também não sairá impune. Da mesma forma, o pervertido também não tem espaço e sua castração só servirá para a redenção do policial, tipo mais próximo ao perfil do norte-americano comum. Já o marido de Sarah, apesar de suas perversões é absolvido pelo filme, visto que está integrado ao sistema.

Longe de agir como Todd Solondz que execra, debocha e se aproveita dos personagens que cria, sem o menor pudor e respeito a eles; Field fica no meio do caminho, mas a visão conservadora de Field e de Perrota diante da possível dissolução do núcleo familiar não poderia ser mais explicita. “Voltem para casa crianças e conformem-se com a vida que têm”. Esta parece ser a lição que filme/livro quer passar. Esse moralismo conservador acaba encobrindo opções estéticas interessantes.

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