A RAINHA:


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Original: The Queen
País: Inglaterra/França/Itália
Direção: Stephen Frears
Elenco: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Sylvia Syms, Alex Jennings, Helen McCrory, Roger Allam e Tim McMullan .
Duração: 97 min.
Estréia: 09/02/07
Ano: 2006


Refém dentro de um palácio de cristal


Autor: Cid Nader

Ver "A Rainha", de Stephen Frears como um filme, um produto puramente cinematográfico – pelo aspecto formalista, estética, opção de roteiro linear e sem nenhuma ousadia narrativa, modelos de atuação, música... –, é embarcar em obra correta, realizada dentro dos padrões mais normais do cinema bem acabado, dirigido a vários tipos de público, e mais ainda a ser aceita e bem compreendida pelos responsáveis graúdos da indústria do cinema mundial. Basta ver a quantidade de indicações para o Oscar que o filme recebeu: foram seis (filme, diretor, atriz, roteiro original, figurino e trilha sonora). Stephen Frears surgiu ousado no mundo do cinema – na realidade já transita por ele desde 1968 – com seu "Minha Adorável Lavanderia" (1985), sendo cooptado rapidamente pelos grandes estúdios, aos quais se rendeu, acalmando um cinema que surgira como novidade e que apostava na ousadia estética e principalmente temática. Se é bom ou não que diretores com esse tipo de calibre passem a fazer trabalhos "comuns" e ricos, não sei. Creio que caiba mais à própria consciência deles, quando deitados na cama, se perguntar o quão felizes estão, o quão eram ousados mesmo e, em caso de uma resposta positiva, o quanto não teriam deixado de contribuir de verdade com o cinema, fazendo um papel que poderia estar sendo executado por outros que já surgiram nascidos dentro desse mundo "rico da normalidade narrativa".

Depois do horrível tropeção com sua última criação, "Sra. Henderson Apresenta" - onde tudo é equivocado desde a idéia adaptada, às atuações, culminando com o comodismo "estético" do diretor -, Frears chega a ameaçar uma volta por cima com "A Rainha". Volto a dizer: não no aspecto formalista, tão conformado quanto chatamente correto, mas sim pela maneira que consegue enredar a uma trama de matiz documental, o verdadeiro "calvário" pelo qual podem passar governantes monárquicos em tempos de democracia popular movida a manipulação rasteira e que objetivam fins não tão verdadeiramente claros e identificáveis empreendida pela mídia – essa sim detentora de poderes imperiais num mundo totalmente dedicado a "ouvir e manifestar".

Essa manipulação rasteira nem precisa ser exercida diretamente pelos órgãos "oficias" – imprensa, basicamente, com seus veículos - detentores do poder de utilização da mídia, mas pode ser ressuscitada por um jovem primeiro-ministro em início de mandato, Tony Blair, que no afã de agradar o eleitorado em um momento particularmente drástico para o reino (a história se passa durante os momentos próximos da trágica morte da ex-princesa Diana), acaba por interferir em algumas tradições seculares que sempre soaram como a coisa mais natural para os membros da família real. O clã – incluída a rainha Elisabeth, a rainha-mãe, o príncipe consorte Phillip e o ex-marido de lady Di, príncipe Charles – acaba por ter de se curvar a algumas "exigências" evocadas por Tony Blair em favor da boa imagem , mesmo contrariados por não verem razões naturais em alguns dos casos – como o da bandeira a meio-pau – e principalmente pela imagem negativa que nutriam quando o assunto era a ex-princesa.

O que se passa ao se observar o filme por esse viés - e que dá lhe o tom mais interessante - é que o diretor, em meio à mesmice e a pouca coragem narrativa/estética, nos revela como o poder pode ser um encargo complicado. Pode ser uma carga pesada demais. A elogiadíssima atuação de Helen Mirren tem suas virtudes maiores não na caracterização física aproximada e crível em relação à da figura original (A rainha Elizabeth II), mas sim quando consegue nos passar através de pequenas reações, olhares, crispações, uma conturbação interior de quem "poderia" ser dono do mundo, tem consciência e sentido de liberdade apurado e desenvolvido, mas "está" refém do manter-se no poder em tempos modernamente manipuláveis.

Em pesquisas costumeiramente realizadas entre os britânicos, invariavelmente, a manutenção do sistema monárquico acaba vencedora sempre por longa vantagem. É muito comum se ver punks admirando a troca da guarda nos portões do palácio de Buckingham. Os ingleses, extremamente democráticos e modernos, gostam de sua família real. O que o filme deixa como pergunta é: a monarquia tenta se segurar de qualquer maneira no patamar em que se encontra, na Inglaterra, ou o povo a tem como uma menina tem sua casa de bonecas, como idealização de um conto de fadas e fantasia – desde que as coisas corram ao seu modo?
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