ROCKY BALBOA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Burt Young, Milo Ventimiglia, Tony Burton, James Francis Kelly III, Antonio Tarver, Geraldine Hughes.
Duração: 102 min.
Estréia: 09/02/07
Ano: 2006


De como se perceber o que virou mitológico no cinema e de como saber resgatar tal mito com competência


Autor: Cid Nader

O senhor Sylvester Stallone talvez tenha jogado uma pá de cal definitiva quando o assunto diz respeito à sua competência dentro do mundo do cinema - como ator ou realizador -, ou sua real importância nesse exigente universo. Quando se cita Rocky o lutador de boxe, não há chinês, iraniano, turco ou boliviano - que já tenha entrado em uma sala de cinema ao menos uma vez - que não remeta a lembrança cinematográfica automaticamente à figura daquele lutador grotesco, canastrão, com cara estranha marcada por um olhar de olhos caídos e voz um tanto "contida". Quando se fala em Rocky, não há alguém que já tenha assistido a algum filme na vida que não se lembre automaticamente da música de Bill Conti que se imortalizou já no primeiro trabalho. Ou quem não tenha armazenadas na lembrança as cenas de Rocky treinando com agasalho, esmurrando um pedaço de boi dentro de um frigorífico e chegando triunfalmente ao topo de uma escada.

Quando cito alguns momentos mais específicos como os que relatei acima, o que quero na realidade é tentar conduzir esse pequeno texto em direção ao real poder mitológico – ou iconográfico – do cinema. Não é necessário lembrar de obras inquestionáveis no sentido de qualidade artística para citar o veículo como um dos grandes armazenadores do poder do mito, da imagem e do som. Não é necessário relembrar a escadaria de Odessa e o carrinho de bebê descontrolado ('Encouraçado Potëmkin" de Einsestein), ou a bola de vidro rolando da mão do falecido Kane ao som do último murmúrio, Rosebud ("Cidadão Kane" de Orson Welles), ou das maravilhosas trilhas sonoras de "Era uma Vez na América" ou "Era uma Vez no Oeste" (músicas de Ennio Moricone, direção de Sergio Leone), para tentar entender o poder de "marca" que o cinema carrega em si. Normalmente se recorre de maneira mais facilitada a clássicos desse nível quando se quer discorrer sobre a influência "mitológica" do cinema sobre os seus admiradores e contempladores. Esquece-se, involuntariamente ou por necessidade de imprimir "classe" à questão, que durante todo o histórico da arte, os filmes menores invariavelmente se fixaram no imaginário do espectador com o mesmo poder e força das obras superiores mais preservadas pelos estudiosos.

Pode-se caracterizar sem muito medo de se estar incorrendo em erro esses tipos de "marcas" como situações de caráter mitológico – basta avançarmos no tempo, percebermos que os veículos, ou instrumentos, para divulgação e preservação são os apropriados e mais usuais do momento, e imaginarmos essas "histórias" sendo revistas ou revisitadas num futuro onde o modo de preservação e a maneira de contar lendas já não serão os mesmos, novamente. E o grande mérito dessa nova saga do já velho lutador Rocky Balboa está justamente nessa revisita, nessa homenagem descarada, nesse resgate. Sylvester Stallone, quando resolveu dirigir e novamente encarnar o personagem do lutador de boxe de boa índole, bonachão e ruim de técnica, foi extremamente feliz em escapar da inegável "canhestrice" que se configuraria se simplesmente ressuscitasse a figura e a botasse para quebrar ou apanhar, e resolveu que o interessante mesmo seria trazer à tona a figura "ancestral" que já havia desfilado por outras cinco vezes nas telas do cinema. Mais do que a figura, percebeu - e foi notável nessa transposição ou re-apropriação – que todo o entorno (figuras, músicas, lugares físicos...) provavelmente estaria enclausurado em recantos das memórias dos apreciadores de filmes.

Daí, foi somente um passo para construir uma obra que remexe na memória e resgata o mito ou o ícone. A história formal imaginada para dar razão e traçar algumas da vias por onde filme deveria caminhar nem são de grande importância – se fossem pormenorizadas poderiam até parecer piegas e cafonas nas imagens da mulher do lutador rememorada em instantes de tristeza, ou indigestas ante a figura grotesca de Rocky desfilando entre as mesas de seu restaurante para contar histórias de seus tempos de glória a ávidos e atenciosos clientes. Mas tudo acaba por servir de utilíssimo gancho para evidenciar a real intenção que é de resgatar os momentos que se fixaram nas memórias. O jeito estabanado de Rocky lutar e que angaria automaticamente a simpatia do povo que sempre busca o herói bom, o ídolo similar a ele (o povo), está no filme – e a figura do opositor, Mason Dixon (Antonio Tarver), também foi construída com cuidado, com particularidades e sem maniqueísmo. Volta o eterno e mal humorado cunhado, Paulie (Burt Young), ainda sobrevivido. Os momentos de preparação física que evitam a modernidade e técnicas apuradas, que vêm num crescendo, recuperando imagens, resgatando a música e concluída na lendária escada, também. E daí resulta a verdadeira história desse novo trabalho de Sylvester Stalonne, que esperta e competentemente vai à busca do mito Rocky (nascido em 1976), e mais espertamente insere-o para despertar o imaginário de quem algum dia já o viu ou ouviu falar. Basta ver a vibração dos "comuns" durante a apresentação dos créditos finais para se perceber que o mito ganha "classe" com o tempo, mas pode nascer pobre ou das histórias mais simples.

Stallone está com a cara mais marcada do que nunca, e canastrão como sempre. Ainda bem.
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