ANTONIA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Tata Amaral
Elenco: Chico Andrade, Barão, Cindy, Nathalye Cris, Ezequiel da Silva, Thobias da Vai-Vai, Sandra de Sá, Hadji, Kamau, Negra Li, Giulio Lopes, Fernando Macário, Leilah Moreno, Quelynah, Negro Rico, Thaíde.
Duração: 90 min.
Estréia: 09/02/07
Ano: 2006


"Antonia" - feito para atingir várias camadas


Autor: Cid Nader

Não é segredo nenhum que a cineasta paulistana Tata Amaral tem predileção em filmar as periferias de sua cidade; mais ainda, os habitantes dessa periferia; e mais ainda, as mulheres que tentam sobreviver nesse mundo mais à parte, mais cruel - porém, rico em suas individualidades. Em seu primeiro longa, "Um Céu de Estrelas" até que não deslocou tanto seu enfoque do centro geográfico da cidade ao localizar a trama no bairro da Moóca (quase centro). Mas os assuntos: falta de oportunidades e sonho feminino de escapada de uma vida difícil - dentro de uma simplicidade espacial que remetia, em similaridade, aos rincões mais pobres e afastados - estavam presentes. Em seu segundo longa, o nível de vida dos protagonistas era um pouco superior, mas o comportamento dos jovens e a exploração da mãe – função mais feminina (inerente) a ser exercida pela mulher -, também remetiam seus personagens ao distanciamento aprazível de um modo de vida mais comum e confortável.

Tata estudou por muito tempo o assunto a ser retratado nessa sua nova realização. Manteve uma característica de naturalidade interpretativa que vem cultivando há muitos anos, como um processo muito particular de compreender o cinema e de imaginá-lo transmitido aos espectadores. Nesse caso, mais especificamente ainda, o risco assumido por tal empreitada de teor "santificado" se viu multiplicado pela escolha da trupe que iria trabalhar no filme: cantores, sambistas, trabalhadores de outras funções, e muito poucos atores de verdade. Risco assumido, pau na máquina. Os resultados? Um muito de sinceridade, que empresta ganho ao filme, e tropeções naturais de quem não é do ramo. Tais tropeções acontecem bastante durante o desenvolver da trama, mas, curiosamente, ficam mais evidentes a partir da metade do filme – como se por alguns momentos, no início, a diretora tivesse empreendido e fixado mais sua presença, numa exigência mais próxima de rigor interpretativo por parte dos não-atores, e a partir de um certo instante tenha largado um pouco a mão, ou por cansaço, ou por entender que novos e mais naturalistas rumos cairiam bem no desenvolver da obra.

Com um esplêndido trabalho de câmera e fotografia, o filme transita pelos caminhos tortuosos e íngremes das periferias da Zona Norte, comprovando para alguns cineastas que utilizar o foco bem próximo dos protagonistas, movimentar velozmente a câmera em busca de ângulos inéditos e caminhar por ladeira esburacadas, não significa descuido no tratamento final e resultados que podem virar o estômago de tanto chacoalhar e "perder o centro". Se era para contar com sinceridade a vida das jovens que imaginam sair da pobreza e do isolamento social através do canto e de capacidades próprias, o filme cumpriu bem seu papel. Tem momentos belos, tocantes, sinceros e fortes. Não dá para negar a atração que exerce a pequena menina em sua interpretação genialmente natural; não dá para negar, também, o belo desempenho do DJ Thaíde, com suas observações "metafóricas" e sonhadoras. Só que a competente e autoral Tata, força a barra em alguns momentos que exigiriam mais sinceridade, para a obtenção de mais credibilidade: a prisão absurda e fora dos padrões do que é norma no Brasil de um dos personagens; uma bela canção, cantada em inglês perfeito, sem ensaio nem nada mas com cara de anti-naturalismo extremo – em contraste à proposta da diretora -, ou o momento em que as quatro se apresentam para presidiárias, numa liberdade poética previsível e desnecessária.

Não é o melhor filme de Tata Amaral. Mas contém bastante de sua essência e belos momentos. É o típico trabalho que cresce em nossas cabeças com o passar do tempo.

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