PRO DIA NASCER FELIZ:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: João Jardim
Elenco: Documentário
Duração: 88 min.
Estréia: 02/02/07
Ano: 2006


Um Mundo que se mostra


Autor: Liciane Mamede

Não há em “Pro dia nascer feliz” um tom engajado ou panfletário. Pelo contrário, a forma simples e não-afetada com que se conecta ao mundo é sua característica mais valiosa. Por isso mesmo, o filme pode ser pensado como contraponto a uma gama de discursos solidificados sobre falsos fragmentos de realidade que transitam comodamente por diversos meios. O contraponto está principalmente no fato de que este filme tenta, a partir de um “marco zero”, sem se prender a um conjunto de significados prontos, criar seu próprio caminho de significações a partir do mundo que vislumbra.

Por mais que “Pro dia nascer feliz” esteja, em grande medida, focado no universo escolar, Jardim não perde de vista as várias faces que seus personagens podem assumir e, a partir desse eixo central, busca desvelá-las. É como se esse universo fosse apenas a ponta visível do iceberg que, na verdade, é determinada por algo muito maior e não-visível. E é atrás dessas causalidades “escondidas”, que o filme parece querer ir a partir da porta de entrada da escola. Quando apresenta suas situações, ele não quer ser um diagnóstico, mas, invariavelmente, acaba trazendo indícios de uma realidade. Ao mesmo tempo, seus personagens assumem o importante papel mediador entre a obra e o mundo que ela retrata.

Quase que invariavelmente, falar de juventude implica tratar de questões ou temáticas inerentes a esse grande tronco de possibilidades. Jardim, mesmo que inconscientemente, dificilmente se esquivaria de tais situações. No entanto, observando com atenção “Pro dia nascer feliz”, vemos o quão longe desse tipo de intenção está seu foco. Não existem tentativas de deslocar o eixo do documentário de um percurso que lhe parece natural. Não há, por exemplo, medo de evocar questões que fazem parte do universo dos personagens, mesmo que elas representem temáticas já exaustivamente abordadas pelos meios de comunicação. Isto porque o filme encontra sua vocação naquilo que apreende de uma realidade que, por sua vez, parece querer se mostrar aos seus olhos.

Muitos dos problemas da jovem professora de português que dá aulas numa escola pública, por exemplo, muito provavelmente, não lhe são exclusivos. Dentre as situações que a incomodam estão, por exemplo, a falta de motivação para dar aulas e o desgaste emocional decorrente do intenso envolvimento com os problemas dos alunos. Apesar disso, o filme estabelece tal relação com seus personagens, que, mesmo que as situações protagonizadas por eles possam representar um universo muito maior de problemas, o que parece estar realmente em jogo são momentos específicos vividos por cada um. E esses vários momentos apenas farão sentido como um todo complexo a partir do momento em que passarem pelo crivo mediador do espectador.

As dimensões das imagens de “Pro dia nascer feliz” existem para além do que é explicitamente mostrado e é a partir dessas possibilidades de desdobramentos que seus motes são, de certa forma, construídos. Assim, quando acompanhamos os depoimentos, a impressão que fica é que eles são de fato uma especulação sobre especificidades intrínsecas a cada um daqueles jovens. Quanto mais ele entra nesses universos pessoais, mais vamos descobrindo que, apesar das diferenças, há um sentimento perante o mundo que une a todos. Quando essa constatação vem à tona, uma espécie de catarse envolve completamente o espectador.

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