DIAS DE GLÓRIA:


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Original: Indigènes
País: França/Argélia
Direção: Rachid Bouchareb
Elenco: Jamel Debbouze, Roschdy Zem, Sami Bouajila, Samy Naceri e Bernard Blancan
Duração: 120 min.
Estréia: 02/02/07
Ano: 2006


Nada mais somos do que um amontoado de situações de nosso passado


Autor: Cid Nader

A relação França (colonizador) e Argélia (colonizados) tem sido, cada vez mais, discutida ultimamente, tanto pelo cinema como no cotidiano dos dois povos. Os acontecimentos mais recentes que se abateram sobre o país europeu, deflagrados por uma miríade de cidadãos emigrados e ou de ascendência emigrada, nada mais revelou do que o turbilhão emocional que os motivou por dezenas de anos. Para continuarem vivendo de maneira decente, sem a fome como vizinha constante e a pobreza impossibilitando comportamentos mais dignos, optaram por cruzar continente e partir em direção à terra que oprimiu e se aproveitou, mas com um discurso paralelo encantador que pregava a igualdade entre os seus e os mesmos direitos para todos. Na prática, obviamente, as coisas não correram assim, fato que se agravou com o passar do tempo, fazendo par a uma conjuntura mais ampla – mundial.

Uma maneira de tentar expurgar o sentimento de culpa ou de revolta – depende do lado – tem sido o cinema. E o contar, através dele, alguns momentos históricos tem constituído fatia interessante para tal expurgação. "Dias de Glória" causou um certo furor quando passou em Cannes, ganhando simpatizantes imediatos – bastante movidos pelo conteúdo e pela essência do que lá estava sendo narrado – e torcendo alguns narizes que se puseram a questionar a estrutura "fílmica" da obra. Vale dizer que, quanto ao aspecto estrutural, o filme é de uma competência acima de qualquer suspeita. Filmado de maneira acadêmica resultou um aspecto visual bastante "classudo". O filme obteve muita classe por sua opção estética: parece um "Cadillac" por seu refinamento e potência no visual, não deixando brechas a qualquer tipo de questionamento quanto à capacidade do diretor em obter o que pode oferecer de mais bem acabado o cinema. Acadêmico, sim, sem que isso possa, ou deva, ser usado como demérito, já que a questão abordada é de tamanha importância e necessidade histórica que maneirismos ou ousadias a mais poderiam comprometer a necessidade premente e vital do tema. Vale lembrar um episódio recente que também resultou uma obra inquestionável, mas que também foi alvo de uma saraivada de acusações por conta de sua "caretice": "O Pianista".

Não há como não ser envolvido pelo assunto. A maneira como os norte-africanos adotaram para si a necessidade da defesa do país europeu durante a II Grande Guerra, colonizador de boa lábia, defensor dos ideais mais "idealizadas" da história humana – igualdade, liberdade e fraternidade – e sedutores ao extremo. A honra de vários povos, cada uma à sua maneira, sem maniqueísmo excessivo – sim, dividem-se os bons dos maus e sobra uma parcela maior de problemas para as atuações do lado francês da história -, sua maneira de encarar a vida, a religião como pilar inquestionável e a abnegação em prol de um futuro mais justo e rico, são os grandes componentes necessariamente utilizados pelo diretor Rachid Bouchareb para sua realização. Se soou careta ou mais "um filme de guerra", para alguns, me resta imaginar que esses "alguns" não tenham conseguido captar a importância histórica e os valores humanistas ressaltados pela obra. Tem problemas como não: aquela pequena manipulação na qual divide os grupos entre bons e maus, a bela música árabe usada de maneira a emocionar em momento de grande necessidade, os tiros que teimam, em não acertar um combatente... Mas são pequenas e desculpáveis coisas ante o proposto de contar uma história pouco conhecida e que persiste, de alguma maneira, nos imigrantes franceses, até os dias atuais.

Ah. E a heróica "pequena última batalha" do filme: exata em sua composição estética e exata em sua composição emocional.
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