O HOMEM DUPLO:


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Original: A Scanner Darkly
País: EUA
Direção: Richard Linklater
Elenco: Keanu Reeves, Winona Ryder, Robert Downey Jr., Woody Harrelson, Rory Cochran, Chamblee Ferguson, Angela Rawna.
Duração: 100 min.
Estréia: 02/02/07
Ano: 2006


Esfacelamento de corpos


Autor: Fernando Watanabe

A imagem final de “O Homem Duplo” mostra o Dr. Robert Arctor, um homem destruído por uso excessivo da substância D, perdido em meio à imensa plantação de substância D (droga destrutiva). Após essa imagem, o letreiro final: “este filme é dedicado a todos aqueles que pagaram mais do que deviam por seus atos”. Não só o filme assume uma postura de afeto – sentimental e piedoso – em relação ao seu personagem principal, como também tenta dar conta de uma problemática política global.

Então, o filme passeia desde as conspirações dos agentes controladores do Estado até a intimidade das pessoas dependentes da droga. Analisar aquilo que oprime o indivíduo ao mesmo tempo em que se aproxima do indivíduo oprimido. O clima tenso de conspiração é instaurado pelo uso da música (típica de trailers de suspense) e pela caracterização de personagens divididos em dois grupos bem distintos: os agentes estatais e os médicos são representados de maneira sinistra, parecendo fantasmas robóticos. Assim, alivia-se destes a carga de responsabilidade sobre o problema, pois são produtos de um sistema. A responsabilidade é despersonalizada. O outro grupo é o das pessoas dependentes da droga, cidadãos comuns à deriva em virtude dos efeitos destrutivos da Substância D. Também fantasmas, também privados de vida. Os dois amigos do Dr. Arctor (Barris e Luckman), apesar de falarem coisas sem sentido e viverem às traças, já estão mortos.

Donna tem aversão ao contato corporal com outras pessoas, patologia causada pelo uso da droga. Quando o Dr. Arctor faz sexo com uma outra mulher, a cena é construída da seguinte maneira: eles estão na cama, corte, eles já fizeram sexo. O ato corpóreo é omitido, para depois ser mostrado pelas imagens de monitoramento das câmeras. O momento de contato humano é visualizado em uma imagem (da câmera de vigilância) dentro da imagem do próprio filme, que por sua vez já é reconfigurada pela técnica de animação. O corpo humano perde sua concretude, sua capacidade de contato. Ainda nessa seqüência, o Dr. Arctor olha para a mulher nua ao seu lado e vê que o rosto dela assume as feições de Donna. O próprio rosto do Dr. Arctor possui múltiplas faces. Isso pode ser interpretado como uma generalização do discurso, algo como “esses personagens representam muitas pessoas”, ou, numa leitura mais grave, como a despersonalização total de cada um. Ou, as duas leituras se completam, o que explicita a urgência do filme em mostrar sua proposta. Outra dica é o sobrenome do doutor, Arctor. Um trocadilho com “actor”, ator, alguém que atua e desempenha um papel ilusório.

Também os espaços são virtuais – fato reforçado pela técnica de animação que “pinta” as imagens filmadas -, pois são “como as coisas serão daqui a sete anos”. O hospital sinistro, o palanque de políticos e as salas de monitoramento das câmeras de vigilância, neles, importam menos os detalhes verossímeis do que a visão panorâmica que o filme tem da situação trabalhada. No caso, visão pessimista em relação ao sistema.

Há ainda duas escolhas estéticas que não só estão em coerência com a proposta do filme como também o tornam um produto desse sistema criticado. A primeira é a já mencionada técnica de animação que colore as imagens originalmente filmadas com câmeras de cinema, atores e espaços reais. A segunda é o hiper verbalismo do filme, o falatório quase sem pausas que os personagens desferem sem economia. O recurso do diálogo é usado como maneira de explicar, de redundar, de tecer uma trama da qual as imagens às vezes já dão conta de forma plena. Opção que atenua a força das imagens, uma vez que ao exigir atenção redobrada aos intricados diálogos o filme impede a concentração total em sua visualidade. Os diálogos – muitas vezes monólogos – racionalizam, explicam e sintetizam a proposta crítica do filme. Pode-se gostar de “O Homem Duplo”, pode-se odiá-lo. Podem-se achar momentos bem sucedidos e outros que derrapam, o que gera um conjunto heterogêneo e fragilmente concatenado. Mas o que realmente inquieta é a impressão de que estamos falando de um produto (sintoma) social bem atual desse momento, caracterizado pelo privilégio das imagens infinitamente reproduzidas e disseminadas que geram uma verdade virtual (ou virtualidade verdadeira?) em oposição (ou complemento?) à verdade concreta individual das pessoas. E o cinema acaba sempre refletindo a sociedade em volta dele. Cinema cerebral, cinema virtual.

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