O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA:


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Original: The Last King of Scotland
País: Inglaterra
Direção: Kevin Macdonald
Elenco: Forest Whitaker, James McAvoy, Kerry Washington, Gilliam Anderson, Simon McBurney.
Duração: 121 min.
Estréia: 02/02/07
Ano: 2006


A barbárie como método de amadurecimento do protagonista


Autor: Anahí Borges

Nicholas Garrigan é um jovem escocês recém-formado em medicina. A sua rebeldia frente às exigências e expectativas de seu pai o levou a brincar com a sorte: girando uma miniatura do globo terrestre, o país em que seu dedo parasse seria para onde ele viajaria. Saiu Canadá. Não servia. Novamente girou. Uganda. E na próxima cena a África aparece em imagens prosaicas. Planos descrevem uma Uganda estereotipada. Pessoas andando nas ruas de terra empoeiradas, mulheres carregando crianças nas costas, tudo muito colorido, tropical, primitivo, exótico, e a trilha de batuque percorrendo toda a seqüência. Nicholas está num ônibus, encantado com tudo o que vê: uma agitação popular nas ruas, bandeiras e panos hasteados, uma verdadeira festa porque um novo presidente tomou posse: Amin.

Evidentemente que o Dr.Garrigan, como será chamado futuramente por Amin, não sabe nada da África, nada daquele país ao qual elegeu para se aventurar. É um burguesinho, recém-formado, que tem estampada na cara a imaturidade e a irresponsabilidade. Uma colega enfermeira o alerta sobre o perigo do golpe político de Amin. Mas Nicholas não se importa, tudo parece estar bem: as pessoas estão em festa, os corpos negros africanos dançam, são sensuais. Ele transa com uma africana. Pra ele ok. Jusqu'ici tout va bien. Mas por mero acaso ele entra na vida de Amin, é escolhido por ele para ser seu médico particular, e posteriormente, seu Conselheiro, o único ser humano confiável. O reconhecimento que o presidente tem por ele, vendo-o como um homem de coragem, inteligência e sinceridade e o elegendo como porta voz de seu governo é o motivo dramático a partir do qual a história se desenrolará e pelo qual a personagem frágil e adolescente do carismático médico amadurece e se transforma.

A relação obsessiva que Amin estabelece com Nicholas é a espinha dorsal da narrativa. Uma relação pautada nas diferenças, um verdadeiro choque étnico, político, social e cultural. Diferenças de caráter, personalidade, cor, pele, tipo físico, gestos, olhar, psique. A confiança que alicerça esse relacionamento é simultaneamente franca e doentia, contraditória em si mesma, porque se por um lado Amin detesta os brancos, por outro adora a nacionalidade escocesa. E da parte de Nicholas ao mesmo tempo em que lhe agrada a confiança que o presidente sente por ele, essa confiança o escraviza e o deixa inseguro. Há uma ambigüidade no sentimento de Amin, que também é esquizofrênica, mas não só. Sua afetividade pelo médico também é legítima, fruto da admiração que teve pelo gesto corajoso, agressivo e impulsivo de Nicholas matar a vaca com um tiro na cabeça. E mesmo pelo fato dele ser escocês. A ambigüidade se manifesta nos gestos de Amin que transitam pelo amor e pelo ódio, pela confiança e pela insegurança. Mas o fato é que existem razões subjetivas e psicanalíticas na personagem que a fazem confiar e amar o jovem, como um amigo, um parceiro de governo, um filho, algo que ele admira inclusive por não possuí-lo em si mesmo: a intelectualidade, carisma, beleza. A tensão latente que existe na relação de ambos se intensifica quando Nicholas trai Amin com sua esposa, situação, aliás, previsível na história. Na metade do filme, quando Nicholas é apresentado à terceira esposa do presidente, a insistência nos campos e contra-campos em que ambos trocam olhares maliciosos antecipa de tal forma óbvia o relacionamento proibido que terão e a punição a que serão sujeitos que quando isso ocorre perde um pouco de força dramática.

No filme o que se estabelece é o terror sobre o ponto de vista de Nicholas. Ou seja, diferentemente de Hotel Ruanda (Terry George, 2004) em que uma situação histórica é contada sobre o ponto de vista de uma personagem (o gerente do Hotel) mas que essa narração transita por um olhar mais abrangente, informal, que analisa o coletivo, a sociedade e as forças políticas mundiais na época da guerra civil no Sudão em 1994, O Último Rei da Escócia permanece sobre o ponto de vista de Nicholas, que aos poucos adquire consciência da loucura e crueldade que Amin possui, mas que, no entanto, só percebe o genocídio que assola o país quando o inglês lhe mostra algumas fotos e, posteriormente, quando vê o cadáver da amante, assassinada a mando de Amin, por vingança. É desse ponto em diante que a personagem vivencia o terror em seu estado mais puro e anti-humano, o medo e a dor tornam-se presentes na sua própria mente. No próprio corpo, quando é torturado.

Exageros à parte, o que é interessante na história é o processo de amadurecimento que Nicholas sofre ao trabalhar como médico convivendo com a miséria humana e desigualdade social que assola a Uganda, além, evidentemente de tomar consciência das injustiças do regime opressor, autoritário, arbitrário e genocida que Amin exerce no país. É como se pelo choque, perda e dor o garoto percebeu o sentido da cidadania, fraternidade e compromisso social. Então me lembro dos jovens ingleses de origem paquistanesa do filme “O Caminho para Guantánamo”. Tudo o que sofreram foi fruto da alienação em que viviam. Somente pessoas alienadas, imaturas e irresponsáveis vão a passeio, por livre e espontânea vontade para um país que vivencia um problema político gravíssimo, um momento de ameaça de invasão norte-americana. Com Nicholas, em O Último Rei... se passa o mesmo. A alienação e rebeldia gratuita o fazem ir pro meio de uma tomada de poder numa nação marcada por conflitos tribais. Foi o que Amin lhe falou: “Por que você veio para cá? Como um branco como os outros? A África existe. Isso aqui é real” ou ainda quando pergunta: “Você é uma pessoa de consciência ou é como esses ingleses que só vem pra cá pra transar e sacanear?”. Enfim, são experiências de horror que essas personagens ícones de uma juventude alienada enfrentam que as obrigam a amadurecerem, a adquirirem consciência de realidades extra-umbilicais, das forças geopolíticas que se movimentam no mundo.

No entanto, é de se questionar se esse choque existencial tem que vir de uma experiência tribal e primitiva, seja na África, no caso desse filme, seja no Oriente Médio, no caso de O Caminho para Guantánamo. Há valores eurocêntricos e cristãos envolvidos nas escolhas do lugar geográfico em que a personagem imatura toma consciência da crueldade humana. A representação do bárbaro nessas regiões geográficas é, na maioria das vezes, superficial, construída por imagens clichês, significações triviais. É onde O Último Rei da Escócia perde a força: nas imagens de uma África estigmatizada: tribal, cruel, primitiva e ao mesmo tempo exótica, colorida, paraíso para as nações européias passarem o seu verão. Isto posto, voltemos ao início do filme, quando Nicholas girou o globo terrestre. Saiu o Canadá. Não serviu para a personagem. A questão que se coloca é: por que não? Para Nicholas a Uganda seria a busca pelo exótico e aventura que o Canadá não possui. E para o filme? A representação da Uganda como a busca da barbárie no Terceiro Mundo e o Canadá nesse sentido, não colabora. Seria, no máximo, o espaço geográfico contemplativo, motivador de filmes como “O Planeta Branco”, por exemplo.
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