A CONQUISTA DA HONRA:


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Original: Flags of Our Fathers
País: EUA
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, John Slattery, Barry Pepper, Jamie Bell, Paul Walker, Robert Patrick, Neal McDonough, Melanie Lynskey, Thomas McCarthy, Chris Bauer
Duração: 132 min.
Estréia: 02/02/07
Ano: 2006


"Conquista da Honra": a falsa vitória de uma imagem


Autor: Marcelo Miranda

Há filmes que dizem a que vieram já no desenrolar de seu encadeamento de imagens. São filmes que normalmente apostam num dispositivo muito claro e direto para transmitir significados. Outros, entretanto, apenas se fecham no plano final, quando tudo foi devidamente apresentado e, no apagar da última cena, temos o todo, e somente ali será possível definir uma linha de pensamento, absorver o impacto, repassar as cenas mentalmente. Este é o caso do cinema de Clint Eastwood. Cineasta clássico por excelência, porém moderno na forma de usar o classicismo. À moda de Howard Hawks, John Ford e tantos mais, Eastwood não explicita dispositivos. Ele os leva às últimas conseqüências do realismo de cena, evitando ao máximo deixar o público “perceber” seus artifícios e, assim, atingir em cheio a platéia. Poucos fazem isso com maestria. Clint é um deles.

“A Conquista da Honra”, filme recente do cineasta, é outro exemplar a seguir tal linha de desenvolvimento. Dentro dessa transparência, Eastwood retorna à Segunda Guerra Mundial para falar sobre os grandes temas de seu cinema: a culpa, o homem-fantasma, a busca por redenção. O filme se inicia mostrando um soldado sozinho em meio ao campo de batalha. Ele anda, olha para os lados, ouve gritos, mas não tem ninguém lá. São assim as criações de Eastwood na tela. Gente que sofreu algum tipo de trauma, uma fissão provocadora de modificações eternas. Seres vagantes que, de repente, deparam-se com a possibilidade de redenção, nem que para isso precisem passar por cima de leis, regras e crenças. Os personagens de Eastwood sofrem, sofrem muito, mas também são extremamente convictos a partir do momento em que tomam as decisões que precisam tomar.

O diretor resolve isso na fluidez de um cinema que respira, que deixa as criações da tela flanarem quase à sua sorte. A arte de Eastwood está em não moldar os personagens a uma vontade particular. Longe de um Iñarritu ou de um Paul Haggis, há aqui a quase necessidade de permitir o filme caminhar, deixá-lo livre para tomar definições próprias. Pode parecer o inverso, mas o controle do cineasta nestes casos é muito mais rigoroso do que quando se realiza um cinema mecânico de ganchos narrativos. O segredo e a genialidade estão em não deixar o rigor se sobressair.

O filme parte de uma imagem – a famosa fotografia da bandeira norte-americana sendo erguida na ilha de Iwo Jima em 1945 – para desconstruí-la ao longo de mais de duas horas de duração. Existe, aqui, uma subversão do gênero “guerra”. Enquanto boa parte das produções na linha é realizada para exaltar algum feito histórico, ou por vezes nem tão históricos assim, “A Conquista da Honra” vai na direção contrária. Não existe a mínima intenção de simbolizar a bandeira como vitória ou encantamento. Ao deixar para além da metade do filme a reprodução do momento em questão (o erguimento do mastro e o clique da máquina fotográfica), Eastwood reconstitui o tal instante destituindo-lhe de qualquer valor simbólico e dando-lhe total carga psicológica. Sai a imagem heróica de um ato visualmente anônimo (não se vêem os rostos dos soldados na foto), entra a angústia dos personagens em questão, aqueles que estão na imagem e, de fato, são os únicos cientes do valor daquele momento.

Eastwood filma o trio protagonista como fantasmas. Eles são zumbis a serem carregados para várias partes dos EUA em busca de financiamento à continuidade da guerra. São obrigados a reviver perante multidões o que mais querem apagar da memória. Há, aqui, algo do Samuel Fuller de “Matei Jesse James” (1949), na impossibilidade de se recriar o momento traumático e marcante de toda uma vida. Em Fuller, o pistoleiro Bob Ford não conseguia teatralizar o assassinato do colega Jesse James, a quem ele traíra, porque aquilo tinha um peso gigantesco na consciência. Os militares de Eastwood sentem a mesma coisa, e são obrigados a voltar ao trauma em nome de uma falsa vitória, ainda que isso somente lhes faça mal.

Um momento de extrema poesia vem quando um sorvete no formato da fotografia com a bandeira é servido num jantar. O garçom aparece e joga calda de morango por cima do doce. O vermelho da calda é suficiente para nos levar dentro da consciência dos personagens. É uma cena tipicamente “eastwoodiana”, cujo paralelo que agora me surge, em meio a tantos outros, estaria no desfecho de “Bird”, quando, numa rápida troca de palavras sobre a idade do músico Charlie Parker, sentia-se toda a carga trágica em cima daquela criatura infeliz.

A estrutura de “A Conquista da Honra” é toda moldada para reforçar o trauma e a amargura dos fantasmas em cena. Eastwood intercala o caminho dos soldados a flashbacks do campo de batalha – tudo a partir das investigações do filho de um dos militares que, no presente, busca entender porque o pai nunca falou no episódio envolvendo a fotografia (recurso de linguagem parecido ao de “As Pontes de Madison”, em que dois irmãos são mergulhados num romance do passado a partir de cartas da mãe). Ao surgirem as seqüências de guerra, o diretor não as utiliza como simples choque. O realismo extremo, o sangue, a carnificina, servem ao filme menos de impacto exibicionista do que de ponte para interligar o antes e o depois da foto.

Novamente a subversão: se o “lógico” do cinema de guerra seria fazer com que as mortes em batalha sirvam para apiedar o espectador da dor dos personagens, em “A Conquista da Honra” elas estão ali para questionar e provocar o seu próprio sentido. Eastwood mostra a morte em nome do país na tentativa de desiludir o espectador de qualquer importância maior daqueles momentos senão o sacrifício de quem ali está. Ele retira o patriotismo que poderia existir dentro (os soldados) e fora do filme (o público) e insere humanismo em cada atitude, em cada fotograma. Os jovens recrutas não são arquétipos ou símbolos de uma nação, como se fossem os EUA a lutarem em pessoa. São, de fato, o que aparecem na tela: garotos que lutam pelo senso de amizade e companheirismo.

Clint Eastwood também é político e contestador. No que muitos vêem como apologia da eutanásia em “Menina de Ouro”, há o questionamento das ações humanas em nome de um bem estar. No que possa parecer extremista o desfecho de “Sobre Meninos e Lobos”, Eastwood discute o ciclo de violência que se abate a cada esquina num país paranóico como os EUA – isso, para ficar nos mais recentes. No seu trabalho mais celebrado, “Os Imperdoáveis”, o cineasta põe em xeque o ideário de que a conquista do Oeste no século XIX foi coroada apenas de êxitos e vitórias e encarna ele mesmo o pistoleiro sombrio que se arrepende dos atos do passado. Em “A Conquista da Honra”, pergunta-se sobre o mecanismo da utilização desmesurada de falsas vitórias para justificar e compensar esforços inúteis – no caso, a manutenção da guerra. Ao falar de manipulação midiática, uso de imagens-símbolo e criação de motivos, Eastwood parece se referir aos dias de hoje, de seu próprio território. Isso, num filme que se “esconde” nos procedimentos aparentemente invisíveis e tão linda e melancolicamente trabalhados pelo realizador.
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