PERFUME: A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO:


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Original: Perfume: The Story Of a Murderer
País: Alemanha / França / Espanha
Direção: Tom Tykwer
Elenco: Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Andrés Herrera, Simon Chandler, David Calder, Richard Felix, John Hurt.
Duração: 146 min.
Estréia: 25/01/07
Ano: 2006


Uma tarefa difícil


Autor: Cesar Zamberlan

Existem livros mais facilmente adaptáveis para o cinema e outros nem tanto. Muitos chegam a parecer impossíveis de adaptar. “Perfume, a história de um assassino” de Patrick Suskind traz um complicador quando adaptado para o cinema que não está relacionado à linguagem do livro - complicador comum se pensarmos no fluxo de consciência e monólogos interiores de Joyce, Virginia Woolf ou Clarice Lispector, por exemplo, ou o narrador em primeira pessoa intruso e digressivo, caso de Machado de Assis e Laurence Sterne; autores tidos como inadaptáveis.

O complicador de “Perfume” está no cerne da trama do livro que convida o leitor a acompanhar um personagem que tem um olfato para lá de aguçado, que consegue distinguir e relacionar diferentes aromas, que cheira longe, que usa esse sentido como nenhuma outra pessoa seria capaz. Fato que o coloca numa outra dimensão, entre ser humano, ser bestial e ser divino.

O grande entrave para a adaptação seria traduzir esse super sentido em imagem, algo que a narração do livro consegue ao contar com a imaginação sempre insuperável do leitor.

Não vale a pena entrar nos mecanismos de recepção de uma obra literária, nos caminhos que levam o leitor a preferir o personagem que construiu a partir do livro do personagem que é dado pelo filme e encarnado pelo ator. Essa é uma longa discussão que nos serve aqui apenas para dimensionar quão difícil é levar qualquer livro às telas e em especial este.

Talvez essa dificuldade dupla explique porque o livro, geralmente lido num fôlego só e por isso sucesso nos anos 80 em vários paises do mundo, inclusive o Brasil (foi lançado em 1985), só agora tenha chegado ao cinema. E mais que isso, essa dificuldade, por outro lado e por mais paradoxal que possa ser, pode servir até como ponto positivo à apreciação do filme por aqueles que conhecem o livro, visto que eles, melhor que ninguém, sabem a dificuldade da empreitada.

Nesse contexto, a questão que precisa ser respondida - ou melhor, para não sermos tão taxativos -, que precisa ser encaminhada é o quanto o cineasta Tom Tykwer é feliz nessa tarefa? Se consegue transformar a possibilidade de um olfato aguçado em imagem? Se o filme em si é bom? Se existe por si só? E se resiste ao parentesco do livro?

Mas, antes é bom lembrar que Tom Tykwer é o diretor do bom “Winter Sleepers” de 1997, seu segundo filme, que passou nos cinemas como a “Neve por Testemunha” e foi lançado em DVD como “Inverno Quente” (o primeiro, “Die Tödliche Maria” ou “Deadly Maria” é inédito no Brasil); do moderninho e famoso “Corra Lola, Corra”; de “A Princesa e o Guerreiro” de 2000 e de “Paraíso” de 2002, filmagem de um roteiro de ninguém menos que Krzysztof Kieslowski que morreu antes de iniciar este filme que seria o primeiro de uma nova trilogia. Entre “Paraíso” e “Perfume”, Tom Tykwer fez um curta com Natalie Portman, “True” e um episódio do filme “Paris, Eu te Amo”.

Esse breve histórico da carreira do cineasta alemão é oportuno porque diferentemente de outros filmes seus, com roteiros intrincados, Tykwer, segue aqui respeitosamente a linearidade do livro e faz aquele que talvez seja seu filme com narrativa mais clássica.

Para resolver o ponto de vista narrativo do livro, Tykwer usa um narrador em off que nos guia pela história e que nos revela, mesmo que esqueçamos - e o filme também deixe de lado em alguns momentos - que essa história tem um quê de fantástica, improvável como possibilidade do personagem de sobreviver em meio tão hostil.

O início do filme que retrata a infância do personagem Jean-Baptiste Grenouille pela lamacenta e pouco cheirosa Paris, a feira-livre, o cortiço, o curtume, é quase monocromático. Essa escolha ajudará a acentuar a opção do diretor por cores fortes. Cores que simbolizarão depois o mundo cheio de cheiros e possibilidades - algumas cruéis, é bom que se diga - que se abrirão ao personagem a partir do momento que toma ciência do seu super poder.

Tykwer se apoiara, sobretudo, nas cores para traduzir essa aptidão do personagem, abusará também da música sempre um tom acima, fará com que a câmera flutuante percorra como um cão farejador a fonte do odores. Consegue alguns bons momentos.

É bonito o momento em que Grenouille descobre sua primeira musa em meio à fétida Paris. Toda a cidade cinza em contraste com a alvura do colo desnudo da jovem e seus cabelos ruivos, além do amarelo forte das frutas que vendia. É dolorosa a convivência que nasce entre o ser humano ingênuo e o monstro. Mas, à parte isso, o filme é constituído de passagens quase toscas como a relação de Jean-Baptiste e seu mestre ou mal resolvidas como na guinada da trama e do personagem em busca do perfume divino.

Tykwer precisará da compreensão do público, da simpatia deste com a narrativa, sabedor ou não da história, para, de fato, envolvê-lo. O êxito de bilheteria do filme em outros paises - é o mais visto do ano passado na Alemanha – talvez aponte para essa possibilidade. Vejamos como isso ocorre por aqui.

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