A GRANDE FAMÍLIA - O FILME:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Maurício Farias
Elenco: Marco Nanini, Marieta Severo, Guta Stresser, Pedro Cardoso, Paulo Betti.
Duração: 104 min.
Estréia: 25/01/07
Ano: 2007


Família ê, família a, família!


Autor: Rogério Ferraraz

“Essa família é muito unida / E também muito ouriçada / Brigam por qualquer razão / Mas acabam pedindo perdão”. Quando esses versos, acompanhados de um sambinha cadenciado, começam a ser ouvidos toda quinta-feira à noite, milhões de telespectadores do Brasil inteiro se ajeitam em frente à televisão para acompanhar as aventuras, alegrias, desavenças e confusões de Lineu, Nenê, sua família e amigos. O seriado atual de maior sucesso da Rede Globo, mais cedo mais tarde, iria acabar nas telonas dos cinemas, seguindo uma tendência crescente nos últimos anos – tendência, aliás, que não vem sendo interessante para o cinema, tendo em vista a fraca qualidade de filmes como “A taça do mundo é nossa” e “Os normais – o filme”. E assim nasceu “A grande família – o filme” (Brasil, 104 min, 2007), dirigido por Maurício Farias, mesmo diretor dos episódios televisivos.

O filme começa com um prólogo em que é mostrado como Lineu, quando jovem (Wagner Santisteban), trapaceou seu então amigo Carlinhos (Celso Bernini) para conseguir entrar num baile (logo de cara fica evidente o ótimo trabalho que o titã Branco Mello fez na direção musical, garimpando músicas raras e também sucessos dos anos 60) e se encontrar com Nenê (Keli Freitas), que seria a parceira do primeiro. A estória, então, salta 40 anos, para mostrar Lineu (Marco Nanini) no enterro de um colega de repartição. Ele começa a se sentir mal e vai fazer alguns exames, que apontam que ele tem uma mancha no peito. Com medo de enfrentar a verdade, ele não tem coragem de abrir o resultado dos exames que diriam se era maligna ou não tal mancha. Ele acredita, porém, que está à beira da morte e precisa tomar decisões difíceis para que a família Silva não sofra com sua ausência, o que resultará em situações tragicômicas, principalmente porque Nenê (Marieta Severo), sua esposa, não sabe de nada que está acontecendo e acredita que seu marido arranjou uma amante, o que justificaria sua mudança de atitude. Lineu, por um artifício do roteiro (de Cláudio Paiva e Guel Arraes), terá três chances de refazer as relações familiares.

A estória e a forma com que ela é contada não têm nada de original. Outros filmes, antigos e recentes, já usaram do artifício de colocar o protagonista num momento chave, na iminência da morte, parar a narrativa e dar outra chance para que ele possa fazer tudo diferente do que havia feito até aquele ponto da estória. O que torna tal escolha especial aqui é que a possibilidade da segunda chance, da mudança, do refazer a vida acontece justamente com Lineu, o personagem mais centrado, correto e previsível de todo aquele núcleo familiar. A opção por centralizar as viradas da trama em cima desse personagem ajudou a segurar o ritmo do filme, principalmente no segundo ato, de longe o melhor e mais engraçado de todos. Porém, nada disso funcionaria se não houvesse um time de atores segurando, com sintonia e cumplicidade, tais personagens.

O melhor de “A grande família – o filme” é, sem dúvida, o seu elenco. Aos já afinados e acostumados com os papéis do seriado Marco Nanini, Marieta Severo, Pedro Cardoso (Agostinho), Guta Stresser (Bebel), Lúcio Mauro Filho (Guto), Andréa Beltrão (Marilda), Tonico Pereira (Mendonça) e Marcos Oliveira (Beiçola), juntaram-se ainda Paulo Betti (Carlinhos) e Dira Paes (Marina). Mas o filme é especialmente de Marco Nanini, que tem, em Lineu, um de seus grandes papéis no cinema. Só um ator de grande talento e sensibilidade consegue interpretar três facetas (ou diferenças no estado de espírito) de um personagem sem perder os traços, o jeito, sutil, que os liguem àquela mesma figura inicial. Tanto no certinho e metódico, quanto no audacioso e irresponsável, como no romântico e sedutor, conseguimos identificar um só Lineu. O trabalho de Nanini é não menos que brilhante aqui.

“A grande família – o filme” tem problemas, e eles são muitos: falta de tempo de comédia em algumas seqüências (muitas vezes, a cena já divertiu o espectador, mas o diretor opta por inserir uma última piada, que acaba por enfraquecer toda a cena, que era boa; se isso funciona na televisão, em cinema é quase um ato de auto-sabotagem); merchandising mal inserido, excessivo, que cria um ruído e incomoda a quem vê o filme na tela grande do cinema – algo que não combina com o tipo de obra que preza pelo entretenimento e pela transparência da narrativa, na qual o espectador se cola e se identifica; situações que soam (e têm uma representação) falsas e forçadas, numa obra que parte de um registro naturalista, principalmente no estilo de interpretação do elenco central; etc.

Se não é um grande filme, com perdão do trocadilho, “A grande família – o filme” é, ao menos, um trabalho honesto e sem grandes pretensões, a não ser a de agradar e entreter o espectador, em especial aquele que já acompanha o seriado – e isso diretor, roteirista e, principalmente, elenco fazem bem.

P.S. O trecho a seguir, de certa forma, revela algo que não está no filme, ao contrário da expectativa dos fãs e apreciadores do seriado. Portanto, a recomendação é que o leitor só leia o próximo parágrafo após ver o filme.

Provavelmente, para tentar diferenciar “A grande família – o filme” do programa televisivo, marcando tratar-se de outro produto, optou-se por não utilizar a canção tema do seriado. Compreende-se tal preocupação, mas, infelizmente, ela priva o espectador de um elemento fundamental na criação da identidade daquele núcleo familiar junto à audiência, principalmente se tivermos em mente que a maioria das pessoas que irá aos cinemas para conferir o filme seja parte do grupo que já acompanha o programa pela TV. Nesse tipo de produto, que priva pelo entretenimento (e aqui não vai nenhuma crítica, muito pelo contrário), não entregar ao espectador aquilo que ele espera, é um risco muito grande – que se correu aqui sem necessidade, já que a estrutura narrativa do filme é suficiente para diferenciá-lo do seriado e, principalmente, porque a canção se encaixaria muito bem na obra, apesar de, em princípio, não combinar com o desenho musical pensado por Branco Mello.

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