O VIOLINO:


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Original: El Violin
País: México
Direção: Francisco Vargas
Elenco: Don Angel Tavira, Dagoberto Gama, Fermin Martinez, Gerardo Taracena, Mario Garibaldi.
Duração: 98 min.
Estréia: 25/01/07
Ano: 2006


"O Violino" – o México duro de fotografia bonita


Autor: Cid Nader

Os mexicanos também costumam exorcizar seus demônios através do cinema. Nossos vizinhos argentinos fazem da tela de cinema um divã ou um campo de protestos contra os momentos terríveis pelos quais passaram nos anos 1970, por conta da ditadura militar que complicou a vida do cidadão comum, principalmente. Os protestos via veículo cinema são realizados basicamente por pessoas componentes da classe média local, que foi a classe mais prejudicada então, num momento de exceção não só nos direitos políticos tolhidos das pessoas desse estrato social, mas de exceção para os que mais sofreram durante toda a história da civilização branca do país – os índios – que especificamente no período não tiveram suas duras vidas mais prejudicadas do que o normal histórico.

No México a coisa é um pouco diferente. País onde a população nativa sofreu sempre tanto ou mais do que no resto das Américas, e onde há um verdadeiro movimento contestador e reivindicador, que vez por outra suscita cenas de confronto e manifestações organizadas que saltam aos olhos do mundo dado o grau de organização e violência, algumas produções espocam, tratando do assunto e colocando os nativos locais como principais protagonistas, caminhando na contra-mão à de trabalhos questionadores sempre brancos do resto do continente em sua parte latina. Os índios de lá ganharam uma certa cancha em organização desde o mítico Emiliano Zapata, que talvez mais do que líder capaz tenha passado à frente um carisma cultivado como que por lenda, mas suficientemente forte para perseverar até os dias de hoje, e assustar as organizações políticas dominantes – há uma aproximação evidente do movimento zapatista, por exemplo, ao que era executado pelos movimentos comunistas e socialistas no início do século passado, num comportamento estranho e atemporal, que tem raízes já extintas em alguns movimentos sul-americanos – os Tupamaros, no Uruguai, o Sendero Luminoso (maoísta, inclusive) no Peru...

Se levarmos em conta a história contada pelo filme "O Violino", de Francisco Vargas, notaremos que índios continuam assustando, mas também que existe alguém disposto e filmar e denunciar atrocidades cometidas contra eles. O filme tem força natural pelo que tem a nos dizer. O diretor optou por uma fotografia em PB de matiz tremendamente bem cuidado e executado, o que aumenta o impacto do que no será relatado, mas passa uma certa desconfiança pelo extremado "bom gosto" quando constatamos o resultado final. A crueza e secura do visual emprestado pelo capricho na fotografia, aliás, denuncia uma certa tendência estética do cinema local, como se alguns publicitários que tivessem o que dizer tivessem se apoderado de temas humanistas, mas não soubessem contá-los sem um certo glamour. Mas pode parecer bobagem discutir fotografia, matizes e granulações, quando volta à memória a violência exagerada que inicia o filme. Quando militares invadem uma cabana, aprisionam os seus moradores e cometem barbaridades – contra os homens, a típica violência de degradação física, contra a mulher, antes da outra, a degradação moral.

Esse início é como um cartão de visita que faz desconfiar: violência de virar o estômago, emoldurada por fotografia impecável. Os mexicanos costumam assustar com esse tipo de cinema, angariando afetos e desafetos na mesma intensidade e quantidade. Mas, o filme caminha e pega um bom rumo. A figura de Don Plutarco é muito bem desenvolvida por Don Angel Tavira; triste, desconfiado, contido nas emoções. A figura do repressor que se afeiçoa também caminha bem, mas nem sempre – num dado momento, o mais crucial, há um acerta virada de fio, como a que atestar que o filme não consegue se manter dentro de patamares puramente confiáveis.

Filme de altos e baixos. De história triste e importante. Tratado por alguém, como não se faz no resto do continente. Mas tratado com um pé na tentativa do agrado superficial; o que o enfraquece e faz com que boa parte das intenções nobres sejam desperdiçadas.
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