DÈJÀ VU:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Tony Scott
Elenco: Denzel Washington, Val Kilmer, Paula Patton, Jim Caviezel, Adam Goldberg, Marel Medina, Erika Alexander, Bruce Greenwood, Rich Hutchman, Matt Craven.
Duração: 128 min.
Estréia: 19/01/07
Ano: 2006


Uma ilusão americana


Autor: Fernando Watanabe

É triste, mas ao mesmo tempo natural, que para melhor compreendemos questões da atualidade como terrorismo ou a tecnologia de vigilância tenhamos que recorrer a outras fontes que não o cinema.

Até que ponto vai a ética na utilização da tecnologia pelos órgãos de segurança nacionais? Como funciona a mente de uma pessoa que pratica atos terroristas? Será a avançada tecnologia apenas mais uma das facetas de um controle que é antes ideológico que técnico? Onde está a fronteira entre o público e o privado? Todas essas discussões estão ausentes de “Dèjà Vu”; mas lógico, é um egoísmo muito grande exigir de um filme aquilo que ele não possui.

Assim como é muita pretensão por parte da crítica tentar intuir as intenções do realizador – neste caso, mais do que de um realizador solitário, estamos diante de um produto resultante de uma imensa cadeia industrial do cinema norte–americano, de uma lógica gigantesca e nada simples. O fato é que as questões mencionadas acima estão apenas sugeridas de modo frouxo. São temas muito presentes em nossas vidas – a do terrorismo é mais próxima para quem mora nos EUA, claro - e acredito ser perfeitamente natural que um espectador mais ou menos atento faça essas associações de maneira praticamente instantânea, sem com isso chegar a conclusões que fujam dos lugares comuns tão explorados e melhor trabalhados principalmente fora do cinema. Deixemos as especulações sociológicas para outra hora. Contraditoriamente, passaremos rapidamente pelo objeto propriamente dito (o filme fechado em si mesmo). Acredito ser mais interessante, neste caso específico, entender o significado do filme como um sintoma cinematográfico bem amplo. “Dèjà Vu” poderia ser interpretado como uma visão norte-americana sobre seus próprios problemas... Mas, será esse o ponto de vista deles? Tão pouco?

Curiosa é a visão “positiva” que o filme traz em relação à evolução tecnológica. Graças à possibilidade de alterar o passado (“Minority Report”, 2002, de Spielberg, usa argumento semelhante), os investigadores evitam a explosão terrorista antes que ela aconteça, numa lógica do “e se...”, que é igual a uma especulação escapista e impotente. Que fazer diante do terrorismo que assombra a América? A solução fantasiosa do filme aponta os benefícios que o controle total sobre os indivíduos, proporcionado pela tecnologia, seria – ou vai ser na realidade - o caminho. Visão mais tecnocêntrica e desumana, impossível.

Câmera flutuante, por vezes tremida, algumas vezes fixa; uma quantidade enorme de cortes na imagem, numa montagem frenética; música aceleradora constante; falatório exacerbado dos personagens; textura estilizada da imagem, com jogos de focar/desfocar maneiristas. Somados, tudo resulta numa saturação de signos. A exigência do filme não está em codificar significados subterrâneos que remetam aos temas atuais (sociedade de controle, terrorismo), mas ao contrário, é pelo excesso de informações extremamente didáticas e diretas que o mais atento dos espectadores perde o bonde a qualquer momento.

Explicações sobre idas e vindas no tempo, sobre o sofisticado aparelho de vigilância usado pelos investigadores, sobre as motivações esdrúxulas do terrorista assassino tornam o enredo cada vez mais complexo, com variações abstratas de temporalidade e espaço. Denzel Washington se sente um pouco perdido em meio a essa avalanche de caos racionalizado, e nós também. Mas pouco importa.

O que importa é ver como um certo nicho do cinema mundial vem banalizando temas “quentes” do momento de forma bem oportuna (ou oportunista?). Ou como um filme grandioso tem muitos efeitos gráficos e um roteiro complicadíssimo, que na verdade maquiam a mediocridade do produto e acabam tirando a graça do espetáculo por dificultar o entendimento da trama. Ainda, como a resolução final (que acena para o início do romance entre Denzel Washington e a mulher “assassinada”, isso graças à tecnologia) é um atenuador dos verdadeiros problemas, travestido de esperança e “crença no homem”.

Há até um letreiro com dedicatória final: “dedicado aos cidadãos de New Orleans”. Que para os mais desatentos pode servir para legitimar quase duas horas de um material frágil que não conseguiu mesclar o espetáculo com um subtexto relevante. Talvez , “Sob o Domínio do Mal” (2004), de Jhonatan Demme, seja o filme norte–americano recente que realmente problematiza os mecanismos de controle técnico/ideológico de maneira séria e mesmo assim espetacular sem ter medo de olhar para o próprio umbigo (país). Importa ver como a crítica, ao analisar os atores, o roteiro, as questões “engajadas e relevantes” do filme, acaba por entrar na dança e contribuir com a lógica de disseminação desse produto. E o mais grave de tudo: importa ver como ainda somos reféns dessa máquina, como nós nos deixamos deslumbrar por esse cinema em questão, cujos excessos técnicos sedutores – já que verdadeiras variações dramáticas parecem já esgotadas - terminam por disseminar a falsa idéia de que a Era da Informatização Industrial irá resolver problemas que, quem sabe, por algum acaso, podem ter suas origens políticas enraizadas ali mesmo, dentro do território norte-americano.
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