BABEL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Alejandro González Iñárritu
Elenco: Cate Blanchett, Brad Pitt, Gael García Bernal, Jamie McBride, Kôji Yakusho, Lynsey Beauchamp, Paul Terrell Clayton, Fernandez Mattos Dulce, Nathan Gamble, Adriana Barraza, Mohammed Bennani, Clifton Collins Jr., Elle Fanning.
Duração: 142 min.
Estréia: 19/01/07
Ano: 2006


“Babel” – para quem crê em Iñárritu


Autor: Cid Nader

Confesso que por vezes tento ser um homem de fé extremada, confiando até o último momento nas boas intenções dos outros. Evidentemente, acabo por ter surpresas bastante desagradáveis, por vezes, mas o pior de tudo é quando tais "surpresas" me pegam de jeito quando já havia sido alertado sobre o caráter de quem eu ainda imaginava salvar em minhas tentativas de compreensão, ou quando o dito cujo já havia demonstrado, pelo histórico, não ser merecedor de outra chance. Também o meu lado "ruim", alternadamente, tenta superar minhas tentativas de ações "de bom moço", evidenciando traços de meu caráter que gostaria não se fizessem tão evidentes. E quando uno esse meu lado mais "ríspido" – digamos assim – à constatação de que aquele a quem dedicava minhas esperanças não era merecedor de meu sacrifício, textos ferinos, maldosos e "desqualificadores" podem surgir do teclado de meu computador.

Iñarritu não merecerá de mim tanta raiva em forma de palavras, mas a constatação, a cada novo trabalho, de que sua preocupação com a humanidade, alardeada por ele por palavras e com sua obra, não passa de um fim para justificar os meios "truqueiros" que ele utiliza na construção de um filme, ah, essa constatação já me parece de caráter irrefutável. Quando esse diretor mexicano surgiu para o cinema – vindo diretamente do mundo da publicidade (olha o preconceito) - com seu, "Amores Brutos", pegou muita gente de surpresa (incluam-me nessa) – com a perspectiva que apresentava de um cinema visceralmente renovado, de estética inusual e adequada, utilizada para contar dramas sociais e evidenciar "escamamentos" em uma sociedade múltipla, dentro de um país pobre, e com eternos sonhos de grandeza. Já à época, algumas opiniões acusavam o diretor de manipulador das imagens, facilitador barato, observador superficial e, mais maldosamente, de fazer um cinema com estética publicitária que servia para apresentar a pobreza ou as anormalidades sociais, de maneira maquiada.

Alguns "gramas depois", quando surge "Babel", falsamente alardeado como um filme que retrata as diferenças entre os homens utilizando-se do símbolo atemporal da mítica torre, o discurso em forma de imagens acaba por apunhalar os espectadores, mais uma vez, com toda sua falsidade de intenções – só não é uma punhalada pelas costas porque, imagino, a maioria já não daria as costas tão facilmente para ele. Manipulador ao extremo, o filme tenta vender imagens e momentos. Quando imbica os Estados Unidos na história, com toda a sua potência e poder em paralelo com a insensibilidade mitificada pelos seus líderes bélicos, por exemplo: o consulado barra uma ambulância que vai a resgate da americana necessitada, no Marrocos, preferindo a utilização de um helicóptero "confiável", enquanto na fronteira México/Estados Unidos helicópteros não faltam, na tentativa de cessar as invasões de hordas de "cucarachas"; toda essa metáfora, na realidade, tem mais a mão condutora do diretor a nos conduzir para os caminhos que nos levam a quem deve ser odiado ou a quem mereceria nossa piedade e solidariedade. Isso é: tenta manipular, com cortes de imagens, reviravolta de câmeras e atemporalidade narrativa, os nossos sentimentos, fingindo denunciar ou proteger, mas não aceitando – possivelmente – quem possa vir a se desviar dos caminhos "não linearmente" traçados.

Esse jeito "Iñarritu' de fazer cinema, com histórias que, aparentemente, não terão a ver uma com a outra, nem em espaço, nem no tempo cronológico, está, evidentemente, deixando os vestígios de sua falsa proposta inovadora – já não tão assim – cobrirem os caminhos pelos quais caminha o diretor. Em "Babel" esse "esfacelamento" ganha cara mais amedrontadoramente assustadora, não deixando muitos espaços para que creiamos em algo sincero em forma de proposta humanista. Evidenciar as suposições precipitadas de um governo "amalucado", que prefere acreditar em atentado antes de qualquer outra coisa ou conclusão mais serena, ganha conotação falsa pelo precedente da ação deflagradora que envolve os garotos marroquinos e maneira como detonaram o estopim de toda a situação. Toda a encenação que inicia a situação e a maneira pela qual os montanheses se tornam responsáveis pelo que ocorrerá ao ônibus de turistas é de caráter "truqueiro". O fato de colocar brancos acovardados largando brancos necessitados por medo: cheira a truque. A menina japonesa, seu caráter instável e ansioso de outras compreensões, num Japão moderno, capitalista, sedutor e irresponsável, a maneira como ela e o pai são envolvidos ao contexto geral da história: não convencem. A falta extremada de sensibilidade que pega a mexicana no deserto, babá de duas crianças norte-americanas, numa fuga falseada pelo roteiro esdrúxulo, com leis duras – sabemos sim que elas existem e o quanto são insensíveis – mas que nos são apresentadas pelo inusitado e pelo improvável girar da história: sinceramente.

O diretor faz um cinema que utiliza-se de ferramentas para – supostamente - vender um produto em prol da humanidade. O diretor faz um cinema para vender – na realidade - uma estética que se aproveita do ser humano e de seus dramas. Desavergonhadamente e sob a cumplicidade de alguns crédulos; ainda.
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