O PASSAGEIRO - SEGREDO DE ADULTO:


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Original: IDEM
País: Brasil
Direção: Flávio Tambellini
Elenco: Bernardo Marinho, Antônio Calloni, Carolina Ferraz, Giulia Gam, Luana Carvalho, Luíza Mariani, Jonathan Haagensen, Sílvio Guindane.
Duração: 105 min.
Estréia: 12/01/07
Ano: 2006


"O Passageiro - Segredo de Adulto" - um filme precisa respirar sozinho


Autor: Cesar Zamberlan

Sete anos separam “Bufo e Spalanzani” e “O Passageiro – Segredos de Adulto”, o primeiro e o segundo filme de Flávio Tambellini. “Bufo” é uma adaptação do livro de Rubem Fonseca, já “Passageiro” adaptação do livro de Cesário Mello Franco. Flávio manteve o nome dos livros nos filmes e conseguiu que os escritores trabalhassem e assinassem também os roteiros. O método de trabalho, se é que assim podemos chamá-lo, parece não deixar suspeita quanto à intenção do diretor em respeitar o livro fonte. Outros diretores fazem justamente o contrário. Ruy Guerra é um bom exemplo, seu “Veneno da Madrugada” vira o livro de Garcia Márquez do avesso, o desfigura para transformá-lo. Longe de querer discutir fidelidade entre filme e livro, algo que é uma bobeira, a indagação que fica é se os filmes de Tambellini conseguem ter autonomia diante da obra que os inspiraram, se o filme respira sozinho? Se não fica “contaminado” demais pelo livro, por mais estranho que isso possa parecer.

Li e vi “Bufo e Spalanzani” e posso dizer que o filme é correto, mas frio, gelado, e respeita demais o livro. Vi, mas não li, “O Passageiro” e posso afirmar que embora mais irregular que “Bufo”, ele traz um diretor mais ousado, construindo imagens mais interessantes. E entre o suposto acerto de um - “Bufo” é mais redondo enquanto narrativa - e o desacerto de outro, prefiro ainda “O Passageiro”.

Retomando a metáfora da respiração, “Bufo” parece que respira bem, sem nenhum tipo de oscilação, mas sem nenhum tipo de aventura, mecanicamente, como se contasse com a ajuda de aparelhos, com um linearidade que incomoda; já “Passageiro” respira seguindo uma lógica diversa, ora mecânica também, mas alternando outros estados de espírito, o que dá ao filme mais vida, e autonomia, e a breve carreira de Tambellini como diretor - como produtor ela é mais extensa e expressiva – um alento de que o terceiro filme seja superior aos dois anteriores. Mas, falemos de “O Passageiro”.

O filme parte de uma idéia interessante: o conflito de um garoto, filho de banqueiro, com o mundo burguês que o cerca. Mas, o que poderia ser o ponto forte do filme, acaba sendo diminuído por uma série de outras tramas e Tambellini ao querer abraçar estas situações, sem conseguir dar conta minimamente delas, acaba por diluir aquilo que poderia configurar uma boa história.

O diretor constrói o filme em torno de Antônio, personagem de Bernardo Marinho - que aliás lembra muito o ator Fernando Alves Pinto quando surgiu para o cinema. O personagem transita e se constrói entre dois pólos: o representado pela família burguesa e fútil e o representado pelos amigos adolescentes da escola, com os conflitos típicos a idade. O núcleo familiar é composto pelo pai (Antonio Calloni) e a mãe (Giulia Gam). Ele banqueiro, competitivo, querendo sempre ser o melhor no que faz; e ela, com “hálito de champagne”, termo que o filho empresta de um poema de Vinicius de Moraes, “As Mulheres Ocas”. A inadequação de Antonio a esse universo e o olhar diferenciado que ele tem para a vida e a sociedade que o cercam dão um impulso ao filme nos seus primeiros minutos, mas o assassinato do pai vai mudar o eixo do filme para a relação de Antonio com o pai: a imagem que ele fazia do pai irá ser reconstruída no mesmo tempo que se investiga o motivo do assassinato.

O problema é que em alguns momentos, o diretor consegue resolver certas passagens do filme com sutileza e simplicidade; mas em outros as explicações exageradas do roteiro ou a construção das cenas são desastrosas. Alguns diálogos dos jovens amigos de Antonio são tão evidentemente mostrados para retratar o universo juvenil daqueles garotos e garotas que em vez de construir um espaço e conflitos verossímeis consegue o efeito inverso: quebra o tecido ficcional e afasta o espectador do filme ao mostrar como aquilo soa e é falso. Preste atenção na questão da gravidez da adolescente, na questão do menino que se liga ao tráfico – algo comum em jovens burgueses cariocas -, no estratagema para tentar descobrir como o assassinato se deu etc.

Outra quebra da narrativa se dá diante da personagem da mãe, vivida por Giulia Gam. Se Calloni convence, Giulia parece não ter aceitado o papel, parece recusar às possibilidades que a bela personagem oferece. Imaginei o mesmo papel sendo vivido por Maria Luisa Mendonça que tão bem faz esse tipo desvairado, desencontrado.

Por outro lado, o desconhecido Bernardo Marinho constrói com muita sinceridade seu personagem. Mesmo quando muita coisa em torno dele destoa – atuações, falas ou situações forçadas -, ele consegue manter o interesse no filme. Usa a sua inexperiência enquanto ator em favor do personagem, do adolescente que constrói sua identidade em meio a todo tipo de oscilações.

Parece curioso, mas o melhor momento do filme de Tambellini é justamente aquele no qual a imagem tem sua maior autonomia diante do texto, a cena de Bernardo Marinho e Carolina Ferraz no motel. Ali, a o diretor diz tudo com a câmera, o filme respira sozinho.

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