ATO TERRORISTA:


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Original: The War Within
País: EUA
Direção: Joseph Castelo
Elenco: Ayad Akhtar, Firdous Bamji, Nandana Sen, Sarita Choudhury, Charles Daniel Sandoval, Varun Sriram, Anjeli Chapman, John Ventimiglia, Mike McGlone.
Duração: 90 min.
Estréia: 12/07/01
Ano: 2005


O engajamento, apesar de tudo


Autor: Anahí Borges

Desde a queda da Torres Gêmeas e a conseqüente política externa anglo-saxônica de caça a terroristas muçulmanos no Oriente Médio, uma gama de filmes americanos e ingleses abordou, e continua abordando, esse contexto geopolítico mundial. Dos vários subtemas dessa temática maior encontram-se, dentre outros: a violência como fator cultural ianque, explorado, por exemplo, por Michael Moore em Tiros em Columbine (iniciando, inclusive, esse filão do mercado); tentativa de denúncia dos reais interesses norte-americanos no Iraque, em Fahrenheit 9/11, também de Michael Moore; reconstituições e leituras do 11 de setembro, presentes em Vôo United 93, por exemplo, de Paul Greengrass; arbitrariedades e injustiças cometidas pelos Estados Unidos com sua política externa de extermínio, presentes em O Caminho para Guantanamo, de Michael Winterbottom; etc.

“Ato Terrorista”, de Joseph Castelo, aborda o terrorismo islâmico como algo complexo, podendo ser apenas fruto do fanatismo religioso como também produto da arbitrariedade e tirania ianque na caça a terroristas. O filme propõe a idéia do círculo vicioso em que vítimas inocentes da Doutrina Bush respondem às torturas que sofreram, filiando-se a grupos extremistas e realizando atentados terroristas. Hassan, jovem de origem paquistanesa, teve boa formação intelectual estudando em Midlands, na Inglaterra e cursando engenharia em Paris, onde injustamente foi capturado por forças norte-americanas e torturado como membro de organização terrorista. A resposta de Hassan a essa iniqüidade foi o fanatismo religioso e a vingança através de atentado no território inimigo.

A premissa de que o terrorismo de Estado desencadeia o terrorismo civil e ambos se retro-alimentam é válida, mas não foi bem desenvolvida na obra. O filme pretende ser uma tese e para tanto as suas idéias antecedem a história na tela. Ou seja, a sua estrutura narrativa em flashbacks explicativos objetiva ilustrar e justificar determinadas posturas de Hassan enquanto planeja o ataque nos Estados Unidos. Dessa maneira, “Ato Terrorista” não consegue estabelecer uma adesão do espectador aos conflitos da personagem e incomoda por sua esterilidade e didatismo. Diferentemente de O Caminho para Guantanamo, em que nos simpatizamos pelas personagens e vivenciamos em tempo real as suas problemáticas e conflitos, de forma a reconhecermos pelo pensamento e pela emoção a tragédia a que estão submetidas, “Ato Terrorista” não nos apresenta Hassan antes de ter sido preso, seu caráter, sua ideologia, sua personalidade, para que o espectador crie empatia por ele e perceba sua transformação. O filme já começa com sua prisão e apresenta as cenas de tortura como lembranças da personagem enquanto está nos Estados Unidos, num registro informativo e, por isso mesmo, distante do espectador, não permitindo que este vivencie a revolta de Hassan e compactue com sua trajetória. Essa estrutura em flashbacks também prejudica a tensão narrativa do filme. Essa tensão, inclusive, encontra seu melhor momento no final do enredo, quando a família descobre que Hassan fabrica bombas caseiras. Desse ponto em diante, o filme trabalha em tempo real a tensão do atentado, conjugando os conflitos internos de Hassan como homem-bomba, a ameaça da irmã de seu amigo morrer na explosão do Grand Central Terminal e a injustiça com Sayeed, preso como cúmplice do atentado.

Retomando “O Caminho para Guantanamo”, no final do filme as personagens dizem como vêem em si mesmas as conseqüências de todo o terror que viveram nas mãos dos americanos, ao serem torturadas injustamente como terroristas. Uma delas diz que fortificou sua fé no alcorão. Hassan fez o mesmo em “Ato Terrorista”: fortificou sua fé, conduzindo-se ao extremismo. O plano final do filme conclui a premissa já dita acima e encerra o ciclo: Ali está rezando seguindo o ritual muçulmano. Essa criança acabou de assistir à reportagem na televisão sobre o atentado realizado por Hassan, a morte de sua tia e a prisão de seu pai. Então fica-nos a questão: irá essa criança reconhecer a injustiça atribuída à sua fé e ao seu povo e ser um terrorista? Sayeed provavelmente será torturado. Sua inocência e bondade virarão revolta, transformando-o num extremista? São questões importantes e urgentes de serem discutidas por muitas cinematografias ainda.

Tempos em que Bush desenvolve planos para o Iraque, desrespeitando a opinião pública, a bancada democrata do seu país, parte da republicana e do Exército; tempos em que acompanhamos a desestruturação de nações no Oriente Médio e o desrespeito às suas culturas seculares por parte de uma política externa ianque de dominação e apropriação de recursos energéticos alheios; tempos em que o direito internacional é largado às moscas e inocentes são mortos e torturados em nome de uma democracia perigosa e incoerente. Nesses tempos, o cinema pode também ser uma arma de protesto, de reflexão, de informação, de humanismo. E nesse sentido, “Ato Terrorista” tem o mérito de se engajar nesse contexto.
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