MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO:


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Original: Stranger Than Fiction
País: EUA
Direção: Marc Foster
Elenco: Will Ferrell, Denise Hughes, Tony Hale, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson, Queen Latifah, Tom Hulce, Linda Hunt, Dustin Hoffman, Thomas R. Trojanowski, Kristin Chenoweth, Christian Solte.
Duração: 113 min.
Estréia: 12/01/07
Ano: 2006


Problematização do real e descrença no cinema


Autor: Marcelo Miranda

Parece estar em moda na Hollywood atual representar a metalinguagem. Só isso explica o pipocar de obras como “Quero ser John Malkovich”, “Adaptação” e, agora, “Mais Estranho que a Ficção”, pra ficar nos mais comentados. Seria uma necessidade do cinema industrial norte-americano ficar bem ante a própria falta de idéias? Ou mesmo se justificar em relação a esta mesma criatividade em queda? Porque, aos menos nos exemplos citados, não parece bastar aos roteiros falar de metalinguagem. É preciso problematizá-la, colocá-la em xeque, no centro da narrativa, e ir aos poucos a desfiando até que ela se torne a grande questão a ser resolvida dentro do filme. A necessidade de tornar a metalinguagem algo consciente no universo narrativo e tentar motivar sua existência é o que parece permear o trabalho recente de nomes como Charlie Kaufman e Zach Helm. E no processo, com a bênção do público, um filme medíocre (“Adaptação”) se torna um filme sobre a mediocridade.

Afinal, nem todos são Woody Allen. O velho e bom Woody fez o que talvez seja o mais inventivo tratado metalingüístico do cinema, que é “A Rosa Púrpura do Cairo”. Ali estão concentradas várias questões acerca da mistura entre realidade, ficção e o limite entre estas duas definições dentro da própria ficção apresentada na tela. Há, sim, a consciência dos personagens de estarem vivendo uma situação absurda (o astro de um filme sai da tela do cinema e se apaixona por sua maior fã), mas jamais isso se torna maior do que realmente importa a Allen – registrar, com o olhar da ficção, a angústia e o vazio existencial de gente comum ante o declínio da economia dos EUA nos anos 30. O que Woody Allen faz é impregnar de fantasia e delírio sua fábula sobre a vida real, sem nunca forçar os elementos fabulares a se sobreporem ou virarem, aos olhos do espectador, os conflitos a serem resolvidos pelo filme.

São por sutilezas assim que “Mais Estranho que a Ficção” não consegue se tornar um trabalho de real destaque. A premissa aparenta seguir tal caminho: um homem percebe fazer parte de uma história que ainda está sendo escrita. Em vez de se aproveitar do gancho inventivo para explorar ao máximo o protagonista, o enredo de Zach Helm prefere se render aos clichês mais comuns da comédia americana misturados a tal problematização da metalinguagem. A salada não funciona muito bem. Se há interesse nas ações que Harold Crick (o personagem) vai tomar ao saber de seu destino, o texto de Helm nos leva para outro lugar, em especial quando insere cenas da escritora aborrecida vivida por Emma Thompson. É nestes entrechos que o filme decai. Helm demonstra preocupação excessiva com os rumos da escritora e tira espaço de Crick, tornando a saga do fracassado auditor da Receita Federal na mera ficção que ela é.

Sim, a vida de Crick é uma ficção, e isso nos está dado desde os primeiros minutos, com aqueles esquisitos efeitos visuais que ilustram as atitudes dele. Porém – e aqui entra a mão do diretor Marc Forster – o filme não se satisfaz em deixar o público ir percebendo o quanto há de ficção na narrativa sobre Crick. O estranhamento sobre as palavras em off que o perseguem, o incômodo de imaginar estar sendo seguido por alguma força sobrenatural, as suspeitas de loucura, tudo se perde ante a vontade aparentemente desesperada de Forster em acompanhar o processo criativo da escritora. Em menos de meia hora, a intriga potencialmente instigante que deveria ser a alma de “Mais Estranho que a Ficção” vira poeira com um simples corte – o corte que leva ao plano em que vemos pela primeira vez o bagunçado escritório onde trabalha a autora do livro que é a vida de Crick.

Forster não segue os ensinamentos de diretores superiores a ele. Não deixa de lado a preocupação excessiva com a fábula, como fez Woody Allen em “A Rosa Púrpura do Cairo”, nem acredita fortemente na trama que conta, como foi Peter Weir no excepcional “O Show de Truman”. Em trabalhos anteriores, Marc Forster já tinha demonstrado tal descrença quanto a quem o assiste. No seu filme mais badalado, “A Última Ceia”, colocava Halle Berry sempre chorando desesperadamente para aumentar a emoção; em “Em Busca da Terra do Nunca”, fazia pouco caso da fantasia que permeava o filme e apelava à música para arrancar lágrimas; e em “A Passagem”, parecia uma versão professoral e didática de David Lynch. Agora, com “Mais Estranho que a Ficção”, novamente Forster dá sinais de ser um cineasta cuja falta de crença na força do cinema é o que mais o destaca.

Pobre do roteirista Zach Helm. Ele tentou ser bom de serviço, mas foi engolfado, primeiro, pela forma mais articulada com que outros escritores lidaram com temas semelhantes e, depois, pelo esculacho com que Forster tratou seu material. Numa hora dessas, Helm talvez queira estar no lugar de seu protagonista Harold Crick, que ao menos ganhou uma criadora preocupada com seu bem estar.
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