FILHOTE:


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Original: Cachorro
País: Espanha
Direção: Miguel Albaladejo
Elenco: José Luis García Pérez, David Castillo e Empar Ferrer
Duração: 99 min
Estréia: 29 de Julho de 2005
Ano: 2004


Singelo, direto, mas não pueril


Autor: Cid Nader

Na última sessão de sábado do filme “Filhote” - em exibição no CineSesc, constatei, mais uma vez e sem nenhuma surpresa, a fidelidade e assiduidade que a comunidade homossexual costuma demonstrar ao comparecer, sempre, à apresentação de filmes e afins,quando a temática aborda situações relacionadas ao seu cotidiano; seu modo de vida. Chegavam em duplas, trios, turmas, demonstrando ansiedade e avidez.

Na tela, o filme me pareceu não ter decepcionado a quem estava lá procurando ver seu próprio reflexo, enxergar seu mundo. O diretor, Miguel Albaladejo, passou a impressão de conseguir retratar em sua obra muito do que se passa no universo gay, de maneira direta e singela, porém não pueril.

O personagem Pedro, dentista e tio de Bernardo, foi criado com sabedoria e capacidade por Jose Luis Garcia Perez. Trata-se de um típico “urso” – modo pelo qual são identificados os homossexuais grandes, gordos e barbudos - que a pedido da irmã deverá cuidar do garoto por “um breve período”.

No início, ficou-me a impressão de que o filme iria sucumbir à facilidade de um comportamento careta, iniciado por Pedro, na tentativa de proteger e isolar Bernardo de seu mundo não muito usual. Ledo engano. A história flui e o moleque nos aparece com muito mais maturidade que os seus poucos oito anos fariam supor.

Aliás, David Castillo, que faz o papel do menino, nos presenteia com um exemplo de grande interpretação, em ótima cumplicidade com Pedro, talvez tendo como ponto máximo e marcante o momento no qual modifica o seu próprio visual (simbólico: é necessário tocar a vida).

O diretor faz boa costura entre a tentativa de isolamento, o surgimento breve de um namorado de Pedro, Manoel (com uma sincera e bonita discussão sobre ser casal, união, sossego; tema mais universal do que imaginamos), os assuntos AIDS e promiscuidade - por vezes muito comum nos momentos de solidão - usados para amedrontar e tirar direitos de posse (existe uma avó paterna, que surge parecendo carrasco, lutando por algo que imagina merecer), momentos de solidão, passagem do tempo, tornando o filme peça singela e com alguns momentos de bom riso, como na cena da festa, por exemplo, com o contraste de corpos abrutalhados, com muita disposição de amar, mas com comportamento delicado e afável.

É, também e talvez principalmente, um filme sobre o rito de passagem.
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