O PLANETA BRANCO:


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Original: La Planète Blanche
País: Canadá / França
Direção: Jean Lemire, Thierry Piantanida, Thierry Ragobert
Elenco: Documentário
Duração: 86 min.
Estréia: 05/01/07
Ano: 2006


Filme Cinza


Autor: Érico Fuks

O bicho tá pegando. Filmar a fauna terrestre tem sido uma predileção recorrente da indústria cinematográfica atual. Principalmente as espécies glaciais, como é o caso dos recentes “A Marcha dos Pingüins” e o longa de animação “Happy Feet”. Tanto um quanto o outro comparado são bem mais criativos do ponto de vista estrutural. O primeiro recobre o aspecto documental com uma narração ficcional em off sobreposta aos animais, assemelhando-se àqueles stickies colados em fotografias que pretendem ler pensamentos. Esse recapeamento discursivo solto não tem a força de transformar sua realidade, mas estampa um certo semblante inflado do exibicionismo de quem realiza. É como se o adendo ilustrativo, em princípio secundário, ocupasse os holofotes. Todavia, esse chiste oportunista não só tem o cuidado de não cair no ridículo de um “Dr. Doolitle” da vida, como também tenta reinventar, com graça e elegância, um gênero substancialmente passivo de observar a realidade. O segundo filme citado faz o contrário ao seguir a cartilha da maioria dos congêneres: inspira-se nas premissas documentais imotas e, a partir delas, cria sua ficção. Reproduz o elemento denominativo de uma realidade conhecida como, por exemplo, o andar desengonçado dos patos de smoking, e a ele adiciona a inverossimilhança cantarolada de uma música do Freddie Mercury.

Já “O Planeta Branco” não tem essa ambição. Parte do registro fidedigno de uma realidade e nessa realidade transparente fecha sua proposta. É um documentário, no sentido mais radical da palavra. Finca suas câmeras nas gélidas tundras apenas para observar o que ali acontece. Essa espreita do devir, sem interferências dos realizadores no processo de filmagem, aproxima “O Planeta Branco” aos recortes biojornalísticos dos programas da National Geographic. Tanto é que o objetivo inicial era fazer um estudo biológico sobre o aquecimento global e os efeitos dessa destruição da natureza aos bichos árticos. Tratava-se de uma equipe que, bem aos moldes do “Fim e o Princípio”, de Eduardo Coutinho (guardadas as devidas proporções), estava aberta às surpresas inerentes do acaso, à sucessão não-prevista dos movimentos fisiocráticos. Esse estilo laissez-faire de filmar traduz-se por uma câmera ecológica, politicamente correta, cuja única missão é fotografar a beleza panorâmica de uma realidade distante e relativamente desconhecida. O tom de denúncia configura-se a partir das conclusões narrativas posteriores a esse registro teoricamente aleatório.

Dado que o filme é preso em sua proposta, ao menos tenta avançar e se sobressair em seus recursos e efeitos dentro dessa redoma glacial. “O Planeta Branco” é tímido e ao mesmo tempo translúcido, quase ingênuo até, dentro do campo das transformações cinematográficas. Mas desconta esse vácuo na execução bem-sucedida de captação de imagens. O reflexo do pôr-do-sol nas geleiras viscosas e escorregadias é um espetáculo à parte. A partir desses firmamentos, o que é um achado a curto prazo pode significar um problema a longo prazo, ao colocar mais uma vez em cheque a paleozóica discussão: o instante de beleza orgânica do mundo que nos cerca, capturado pelas lentes, é um mérito da natureza ou do fotógrafo?

Mesmo frágil em sua estrutura, percebe-se que a competente equipe usou sua criatividade e sutileza para ir um pouco mais longe. Câmeras uterinas adentrando o segredo recôndito de cavidades perdidas na neve são a prova de que há um imenso universo a ser explorado, mas essa tarefa não é para todo mundo. É bom deixar claro que essa reconquista ocorre apenas no espaço. “O Planeta Branco” mergulha mas não se aprofunda, transferindo a incumbência e a responsabilidade de maiores imersões a leituras e interpretações extra-cinematográficas.

Repleto de imagens claras e brilhantes, o filme segue uma trajetória relativamente dúbia. Se por um lado existe a premissa da passividade e da não-interferência sobre a realidade exposta, por outro os mecanismos não-diegéticos intervêm negativamente sobre seu resultado. A trilha sonora, desnecessariamente didática, soa mais como um ruído do que complemento. Trata-se de um acúmulo organizado de sons que, assim como num filme de terror, induzem a reações bem planejadas. Há os timbres que forçam uma expectativa de suspense, outros que delineiam uma visão mais romanceada sobre a fauna destruída, enfim, uma orquestra que ao mesmo tempo acompanha o ritmo animal e conduz as reações da platéia. Esse sentido musical provocativo e manipulador, portanto, parece incoerente diante de um deixar-acontecer das imagens. Em relação ao conjunto visual deslumbrante, trata-se de um pormenor. Mas se relativizado ao labor cinematográfico, indica que documentar as calotas congeladas do planeta com arrojo é uma espécie em extinção.
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