A MENINA E O PORQUINHO:


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Original: Charlotte's Web
País: EUA
Direção: Gary Winick
Elenco: Dakota Fanning, Kevin Anderson, Noel Ballantine, Gary Basaraba, Julia Roberts, Oprah Winfrey, John Cleese, Steve Buscemi.
Duração: 97 min.
Estréia: 05/01/07
Ano: 2006


Bastava relançar o desenho da Hanna-Barbera


Autor: Fábio Yamaji

Um dos filmes de “sessão da tarde” que mais marcaram a minha infância, no final dos anos 70 e início dos 80, foi um desenho de longa-metragem produzido pelos estúdios Hanna-Barbera: “A Menina e o Porquinho”. Eu me envolvia totalmente na emocionante aventura do porquinho Wilbur, que era salvo do abate certo pela aranha Charlotte, numa história com bichos falantes, números musicais e misteriosa narração em off (eu pensava: “quem estava falando aquilo?”). Um filme bastante especial pra mim. Dos únicos longas em animação a passar na TV naqueles tempos (outro era “A Rena do Nariz Vermelho”, sempre na época do Natal), em meio às várias séries que ocupavam o dia todo, todos os dias (as quais eu assistia todas). E longa-metragem parecia ser mais importante, exigia concentração por um tempo maior, era mais desafiador para uma criança - e eu adorava aquilo. Por isso, sempre que “O Porquinho” era reprisado, o dia era preparado para a sessão: tinha que ter pipoca, mandiopan, bolinho de chuva, leite com nescau, coca-cola, balas juquinha. Cortinas fechadas (pra deixar a sala escura), o melhor lugar no sofá (com 3 irmãos isso não era tão fácil de garantir) e volume alto. Bons e nostálgicos tempos…

O filme foi esquecido - o VHS não o recuperou (até onde sei), e depois de uns 20 anos ressurgiu em DVD. Comprei imediatamente. Revi esta pequena obra-prima e constatei que continua mágico, cativante e atual. Sem contar que a qualidade da animação é excelente, aspecto que hoje me chama muito mais a atenção que em outros dias. “A Menina e o Porquinho” deveria ser relançado nos cinemas, onde nunca tive a oportunidade de ver – até mesmo como uma providencial homenagem ao grande Joseph Barbera, morto recentemente (e quem tive a honra de conhecer pessoalmente em 2004, nos seus 92 anos).

No entanto, temos agora uma refilmagem. Com pessoas e bichos de verdade, uma massiva contribuição da computação gráfica e grandes estrelas hollywoodianas dublando a bicharada, como Julia Roberts, Robert Redford, Oprah Winfrey, John Cleese, Steve Buscemi, Kathy Bates, Thomas Haden Church - mas disto fomos injustamente privados, já que o filme estréia aqui somente com cópias dubladas e adaptadas ao carioquês (nada contra o sotaque fluminense, mas ele não cabe em hipótese alguma num filme que se passa em região rural dos Estados Unidos – e muito menos com expressões tão típicas como “sinistro”).

Este novo “A Menina e o Porquinho” é outra digna adaptação do livro homônimo de E.B. White, mas um tanto monótona para um filme direcionado às crianças pequenas. A história se desenrola preguiçosamente, burocrática, carecendo de uma cadência que gerasse momentos mais empolgantes e engraçados. Chega a dar sono; contagiam-se bocejos. Em comparação ao desenho de 1972, perde muito não só em consistência narrativa mas principalmente na ausência das sequências musicais – situações em que a fantasia, o nonsense e o bom humor aliviavam, em momentos pontuais do filme, a trajetória dramática do porquinho. O diretor Gary Winick, definitivamente, não contribuiu para a história com nada que justificasse uma refilmagem visualmente tão caprichada. Faltou inspiração.

Se você conseguir desencanar da péssima dublagem* preste atenção na ótima trilha sonora de Danny Elfman, que aparece aqui mais clássica e melodiosa que o habitual (como no destoante “Sommersby”), com temas belíssimos, deliciosos scherzos e eventuais usos de coro (ao estilo do inesquecível “Edward Mãos-de-Tesoura”). Música saborosa. Resta-nos torcer pra que o CD seja lançado aqui no Brasil.

* as distribuidoras brasileiras precisam repensar seriamente este aspecto – sotaques regionais, humoristas, estrelas globais, cantores, modelos, apresentadores e big brothers não servem para filmes. Dublagem é coisa séria; função para profissionais. Existe toda uma classe de competentes dubladores disponíveis para trabalhar nos filmes de animação.
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