DIAS SELVAGENS:


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Original: A Fei Jing Juen
País: Hong Kong
Direção: Wong Kar-wai
Elenco: Leslie Cheung, Maggie Cheung, Andy Lau, Carina Lau, Rebecca Pan, Jacky Cheung, Danilo Antunes, Hung Mei-Mei, Ling Ling-Hung, Tita Muñoz, Alicia Alonzo, Angela Ponos, Tony Leung.
Duração: 94 min.
Estréia: 05/01/07
Ano: 1991


“Dias Selvagens”: Wong Kar-wai em estado bruto


Autor: Cesar Zamberlan

Para comemorar o aniversário de um ano em cartaz de “2046” que ocorreu no dia 6 de janeiro em São Paulo, a Pandora, distribuidora do filme no Brasil, lança o segundo filme de Wong Kar-wai, “Dias Selvagens” que até então havia passado em São Paulo apenas na Mostra Internacional.

A lançamento é extremamente oportuno, não só por “Dias Selvagens” ser, talvez, o melhor filme do diretor, mas pelas relações existentes entre esse filme e os dois mais famosos do diretor, “Amor à Flor da Pele” e “2046” que, de certa forma, dialogam formalmente e esteticamente.

Em “Dias Selvagens” já encontramos algumas das qualidades que depois aflorariam de forma mais intensa no trabalho do cineasta chinês que com cinco anos migrou para Hong Kong. Um dado importante é que o filme marca o início da parceria do cineasta com o fotógrafo Chistopher Doyle que assinaria depois todos os filmes do diretor.

Em “Dias Selvagens” temos um cineasta em estado bruto, aprendendo que é o cinema e experimentando possibilidades narrativas e estéticas. Diferente dos trabalhos mais recente, que são mais fechados em seus conceitos, mais bem acabados a ponto de serem injustamente acusados de “excessivamente artísticos”, “Dias Selvagens” tem um frescor, um vigor, uma irresponsabilidade maior.

Diferente da poesia serena, madura e deslumbrante de “Amor à Flor da Pele” e “2046”, há uma beleza juvenil, quase virgem e não menos deslumbrante em “Dias Selvagens”. É o mesmo corpo que cresceu, ganhou nova forma, amadureceu, fruto de um tempo diferente apenas.

Nesse aspecto, poder ver “Dias Selvagens” agora, depois de ter visto e revisto a filmografia de Kar-wai é uma experiência riquíssima e quase um convite a um jogo no qual se busca identificar de onde surgiram certo traços marcantes na obra do cineasta.

O preciosismo nos enquadramentos, às vezes, delimitado por um sobreenquadramento, seja de uma janela, parede, cortina já aparece em “Dias Selvagens”; a câmera lenta que depois vai ser extremamente explorada também, ela alonga o tempo da caminhada de Yuddi depois que ele sai da casa da mãe nas Filipinas; a composição do enquadramento com os personagens apoiados em muros e paredes também; a fumaça de cigarro, ventiladores, cortinas também já aparecem como elementos cênicos importantes; a chuva idem, só que aqui menos estilizada e mais torrencial, selvagem mesmo; as elipses que costuram a narrativa, embaralhando as coordenadas temporais não tão significativas como em 2046, mas já aparecem e invariavelmente com uma narração em off a situá-las; a narração em off também aparece com digressões dos personagens sobre o amor e citando imagens ligadas à natureza como a do pássaro sem pernas e seu vôo que só termina com a morte que aparece aqui e é citada novamente em 2046; a música com ritmos latinos e caribenhos que aderem de forma precisa às imagens, uma marca indissociável do diretor também; personagens como Lulu que reaparecem como o de Carina Lau, a segunda namorada de Yuddi que depois o segue até a Filipinas e reaparece no início e no final de 2046, a de Maggie Cheung cuja Su Lihzen se não é a mesma nos três filmes (“2046”, “Amor” e “Dias”), representa sempre o amor que beira o sublime e por isso não se concretiza, sem contar o personagem que surge no final de “Dias Selvagens”, uma espécie de protótipo do personagem Chow Mo-wan que Tony Leung imortalizaria depois, tanto em “Amor à Flor da Pele” como em “2046”.

Porém, em “Dias Selvagens”, Wong Kar-wai - se não foge a questão talvez mais importante de sua filmografia: o amor - justifica, diferente de “Amor á Flor da Pele” e “2046”, a impossibilidade de amar, a explica diante do temor do abandono, da insegurança causada pelo rompimento com o laço materno. Não raro, as mulheres de Wong Kar-wai perguntam ao personagem masculino porque eles tratam tão mal as mulheres. Em “Dias Selvagens”, a resposta é dada pelo trauma que a adoção causou a Yuddi (Leslie Cheung). Trauma que faz dele um desterrado, incapaz de construir uma relação ou confiar em alguém. Só que elas não sabem disso e sofrem.

Neste filme, Kar-wai faz uma diferenciação entre o tempo do amor para Yuddi, o minuto que antecede às 15h do dia 16 de abril, minuto que ele conquista Su Lihzen (Maggie Cheung) e o tempo de amor das personagens femininas que se declaram a ele, visando um amor que dura “todo o tempo”. Essa recusa ao amor “eterno” que é a própria negação do amor, por parte do homem, está presente também em “Amor á Flor da Pele” e “2046” e representa o ponto de colisão entre as sofredoras mulheres de Wong Kar-wai e personagem masculino, Leslie Cheung em “Dias” e Tony Leung nos outros. Esse choque, ou melhor, a (im)possibilidade de compatibilizar esse tempo será o tema de “2046”.

“Dias” se constrói invariavelmente com dois personagens em cena, com pares. O primeiro é Yuddi (Leslie Cheung) e Su Lihzen (Maggie Cheung), na magnífica seqüência do bar no estádio no qual ele a conquista e a seduz, transformando o primeiro minuto em vários outros, mas sempre pensando no hoje e no agora, não mais que isso. As cenas do casal na casa de Yuddi são das mais belas da filmografia de Kar-wai, o que não é pouco. Os outros pares são Yuddi e a mãe adotiva, Yuddi e Lulu (Carina Lau), Yuddi e Tide, Su Lihzen e Zeb (o soldado/marinheiro), Su Lihzen e Lulu, Lulu e Tide e Yuddi e Zeb.

A narrativa se desenrola entre esses pares, em duelos emocionais, nos quais está em jogo sempre a sedução e a submissão, o desconforto e o desencontro. As cenas que marcam o par Su Lihzen e Zeb também são belíssimas. A seqüência em que os dois caminham à noite pela cidade, talvez seja a mais bela do filme e o desencontro dos dois remete muito a “Amor á Flor da Pele”. Igualmente bela é a seqüência final no trem sem destino, de novo “2046”, e a do hotel nas Filipinas, quarto 204, no qual Zeb e Yuddi se reencontram.

Com a morte de Yuddi e quebrado os pares, surge um novo personagem masculino que Kar-wai remodelaria depois em Chow Mo-wan, o personagem de Tony Leung em “Amor” e “2046”. E aí, a figura dele será sempre impar, solitária, e o amor e sua significação passarão a ter contornos ainda mais duros, impenetráveis. Kar-wai passará a negá-lo. Mas este já é um outro tema.


P.S. – Além das críticas, recomendo a leitura dos ensaios "2046" de Wong Kar Wai: era uma vez o amor de Rodrigo Petrônio e "2046" Elogio do Excesso de Adalberto Muller, publicados na Coluna Ensaios e Pesquisas que ajudam a compreender o trabalho do cineasta.

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