EM DIREÇÃO AO SUL:


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Original: Vers le sud
País: Canadá/França
Direção: Laurent Cantet
Elenco: Charlotte Rampling, Karen Young, Louise Portal, Ménothy Cesar, Lys Ambroise, Jackenson Pierre Olmo Diaz.
Duração: 108 min.
Estréia: 29/12/06
Ano: 2005


"Em direção ao Sul": entre Papa Doc e "Papa" Legba


Autor: Cesar Zamberlan

“Em direção ao Sul”, o terceiro longa do francês Laurence Cantet, diretor também de “Recursos Humanos”, “Agenda” e do episódio “Os Sanguinários” da série “2000 visto por...” é também o seu filme menos “francês” – forma como alguns cinéfilos pejorativamente acusam o cinema mais verborrágico e cerebral feito na Europa e não necessariamente apenas por franceses - , fato, porém, que não o credencia como melhor filme do diretor, longe disso.

Essa guinada talvez ocorra porque Cantet abandonou as questões sociais como o desemprego e o mal estar da Europa contemporânea para abordar um tema, em tese, estranho à sua condição de europeu e por tratar de um tema não atual - a história narrada por “Em direção ao Sul” se passa no Haiti de Papa Doc no final dos anos 70. Mas, ainda assim, é possível traçar alguns paralelos entre os outros filmes de Cantet e esse. O principal deles seria a busca desesperada por um lugar melhor, um lugar menos corrompido, seja pela acirrada competição e selvageria capitalista, seja pela não menos selvagem opressão política.

A fuga e a busca do “paraíso” estão no centro dos filmes do diretor e presente, mais do que nunca, neste; no qual, mulheres estrangeiras se hospedam num hotel paradisíaco à beira-mar e recebem o carinho de belos e miseráveis jovens haitianos. Mas, o paraíso delas, comprado com dólar e o deles que se vendem para fugir do inferno, a pobreza e o regime totalitário, logo se desmorona, fazendo prevalecer a trágica tese de quão miserável, instável e infeliz é a nossa condição e isso, independente do lado que você esteja. Se do ponto de vista do colonizado, bem mais selvagem é a conseqüência e o preço a pagar pode ser a própria vida; se do lado do colonizador, a certeza que existe a possibilidade, pelo menos, de se deslocar, do “paraíso” e sua selvageria para a civilização e seus males modernos – a volta para a casa - ou ainda mais para o sul como faz a personagem do filme, encontrada em sua perdição.

A discussão que o filme traz, o confronto entre a visão do paraíso delas e do inferno deles é, no entanto, retratada de maneira desigual no filme. O olhar estrangeiro, colonizador de Cantet acaba se perdendo numa subtrama de ciúme e inveja entre Ellen e Brenda, as personagens de Charlotte Rampling e Karen Young, que disputam o Adonis local Legba. Fazendo com que o filme em alguns momentos desmorone para o melodrama piegas, perdendo a força inicial acentuada pela fortíssima cena inicial na qual uma mãe, no aeroporto, tenta vender a filha, tentando assim garantir a sobrevivência desta.

Um dado curioso do filme é a tentativa de Cantet de inserir, em meio à narrativa, depoimentos dos personagens sobre a história e sua existência, visando dar maior peso aos personagens que assim se explicam, se auto-analisam. Eles falam para a câmera ou em off, quebrando o ponto de vista narrativo da câmera que constrói a história. O único que não fala é Legba que, de uma forma ou de outra, é usado pelo sistema, ou como bode expiatório, ou como isca para o turismo sexual. Fruto da disputa entre as turistas, a câmera o acompanha e é ele que, ao transitar entre o Haiti paradisíaco e o Haiti infernal, irá mostrar que o lugar buscado pelas personagens de Cantet não existe porque esse lugar está em todos os lugares, restando como saída, voltar ou continuar fugindo em direção ao Sul.

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