A PROMESSA:


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Original: The Promise
País: China/ Hong Kong/ Japão/ Coréia do Sul
Direção: Chen Kaige
Elenco: Dong-Kun Jang, Hiroyuki Sanada, Cecilia Cheung, Nicholas Tse, Ye Liu, Hong Chen, Cheng Qian
Duração: 102 min.
Estréia: 22/12/06
Ano: 2006


"A Promessa" – ‘Animê’ em live-action: ‘cosplays’ em cena


Autor: Fábio Yamaji

“A Promessa”, exibido na última Mostra, decepcionou críticos e cinéfilos por ficar muito aquém de suas expectativas. Afinal, trata-se de um filme de Chen Kaige, de quem se espera um trabalho sério, denso e elaborado, como seu premiado épico “Adeus Minha Concubina” - e o que se vê na tela passa longe disso tudo. Mas um cineasta não pode mudar de estilo ou tema? Não devemos confiar em sua proposta, qualquer que seja, e nos deixar levar pelo que suas imagens contam? E ele não tem o direito de deixar o político e o social de lado e embarcar numa aventura escapista e visual?

O problema, portanto, pode estar nas expectativas. “A Promessa” é essencialmente um filme de fantasia, coalhado de ação e romance puros. Isso fica muito claro o desde o começo, quando a bela Deusa Manshen, flutuando no céu, nos apresenta os personagens principais através de gravuras – protagonistas de uma fábula sobre lealdade, desejo e falsidade. É fantasia exagerada, bidimensional, maniqueísta mesmo. Com música grandiosa e onipresente. Filme de entretenimento, pra impressionar os olhos e empolgar da forma mais direta possível. Oba!

Kaige está mais interessado no efeito estético e nas reações imediatas, primárias - e não necessariamente em profundidade e reflexão. Por mim, tudo ótimo. Ele investiu em seqüências espetaculares, de forte impacto visual, com influências óbvias do cinema de ação chinês, mais elementos do pop japonês. A tela do cinema funciona aqui em sua opacidade, e não na transparência. “A Promessa” se mantém confortavelmente na superfície, nos dois sentidos. Por isso sua rejeição pode estar mais ligada a este tipo de cinema em geral, do que especificamente em si próprio.

O filme empresta soluções narrativas do mangá (a HQ japonesa) e do animê (a animação japonesa). As seqüências de planos fantásticos e os movimentos de câmera elaborados são aplicados ilimitadamente, aproveitando a pouca quantidade de diálogos e o potencial de ação de várias das cenas. E a câmera por vezes se posiciona em locais bastante improváveis, privilegiando o impacto visual em detrimento à sua função narrativa. É o virtuosismo que manda. Um plano bastante recorrente no filme é quando a câmera se fixa num personagem correndo ou num objeto em velocidade (uma espada, por exemplo) e ao fundo só vemos o cenário como um borrão em movimento: recurso clássico e básico tanto do mangá quanto do animê. Muito bem sucedido nesta experiência com atores.

E é em relação aos atores - e suas vestimentas - que se percebe outra curiosa influência do pop japonês em “A Promessa”: o cosplay. Contração do nome “costume player”, identifica uma comunidade bastante especial - espalhada pelo mundo - de fãs de HQs, animês, videogames e RPGs, que se dedicam a reproduzir e vestir as roupas dos personagens. Num filme que se assemelha a um animê em live-action é natural reconhecer cosplayers em cena, ainda mais quando os trajes carregam importância crucial durante todo o filme. Vejamos: é no uso imprevisto da armadura do General Guangming pelo escravo Kunlun que se estabelece a grande confusão, que faz a Princesa Qingcheng se apaixonar pela pessoa errada e sela destinos injustos ao general e ao escravo. E é com o seu belo vestido que a Princesa manipula milhares de soldados, insinuando mostrar as várias camadas que cobrem seu corpo, tirando peça por peça. Em outro momento, a Princesa veste um traje branco dotado de asas e coberto de penas, que não passa de um ‘uniforme’ para a cela em forma de gaiola que ocupa. Esta roupa renderá uma das cenas mais incríveis (e absurdas) do filme. Já o kimono da Deusa Manshen é tão belo quanto os demais itens do figurino do filme, mas sua propriedade flutuante a diferencia dos simples mortais. Os trajes não são necessariamente os mais práticos e os mais indicados para as situações em que são envergados, mas certamente funcionam melhor esteticamente. É o conceito fashion mais uma vez presente numa fábula épica, como vimos recentemente na prequel de Star Wars. Enfim, o hábito faz o monge e o cosplay reina em cena. A ‘fantasia’, portanto, ganha mais um sentido neste filme.

Concluindo, quero destacar a presença luminosa da atriz e cantora Cecilia Cheung no papel da Princesa Qingcheng, de impressionante talento e beleza; e a trilha sonora do compositor alemão Klaus Badelt (“Piratas do Caribe”), mais uma vez eficiente, bela e poderosa. Considerando o papel da música e do desenho de som no cinema de animação - que respondem reconhecidamente por metade da importância na história - o trabalho de Badelt em “A Promessa” merece igual mérito pela intensidade e emoção com que colabora no filme. Torçamos para que o CD seja lançado comercialmente por aqui.
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