O AMOR NÃO TIRA FÉRIAS:


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Original: The Holiday
País: EUA
Direção: Nancy Meyers
Elenco: Cameron Diaz, Kate Winslet, Jude Law, Jack Black, Eli Wallach, Rufus Sewell, Edward Burns, Shannyn Sossamon.
Duração: 136 min.
Estréia: 22/12/06
Ano: 2006


Seguindo a cartilha


Autor: Liciane Mamede

Ao contar a história de duas mulheres que, por causa de decepções amorosas, resolvem dar uma virada em suas vidas, “O amor não tira férias”, de Nancy Meyers (“Alguém tem que ceder”), não se compromete em ser mais do que um cinema de cartilha, sem subversões, sem incorporar nenhuma inventividade. As cartas, no entanto, estão explicitamente colocadas à mesa. Todas as motivações que fazem com que este filme exista estão nele reunidas de forma clara e direta. Tão direta, que nem ao menos escapa ao espectador o fato de que se trata de um produto com intenções de ganhá-lo a qualquer custo, seja com histórias de amor batidas em que tudo está meticulosamente arranjado para desembocar num imprescindível final feliz, seja por meio de um elenco de grandes nomes. Seria este, então, um filme covarde por agarrar-se de forma tão descarada a fórmulas quase que institucionalizadas e fazer disso seu grande trunfo? Esta pode ser uma forma de percebê-lo, porém, certamente não é a única.

“O amor não tira férias” não exige mais do que um pouco de complacência e bom-humor para mostrar que tem algumas coisas boas a oferecer. A boa química construída entre Jude Law e Cameron Diaz talvez seja responsável pelos pontos altos da trama (pontos altos, entenda-se, num contexto relativo). O clima intimista proporcionado pelo inverno londrino, as desventuras causadas pela extrema “peruísse” da personagem de Cameron Diaz, os encontros e desencontros do casal, o sofrimento que a distância pode causar se decidirem continuar o relacionamento, todos estes são elementos que, combinados, fazem com que a narrativa consiga ganhar algum fôlego. Mesmo que tudo soe como um padrão de repetição, há algo neste núcleo que chama o espectador para dentro, afinal, uma coisa parece não escapar à Meyers: para acontecer, o cinema exige a participação do público. E, partindo desse princípio, ela vai mais adiante em sua crença: os mais escancarados e apelativos elementos são válidos para atingir esse objetivo. Nem sempre tal escolha se faz em detrimento da qualidade estética, porém, talvez falte à diretora de “O amor não tira férias” um certo de jogo de cintura. O filme mantém-se numa corda bamba constante e as duas tramas paralelas que constrói são bastante irregulares entre si.

Enquanto o núcleo londrino soa mais leve, sincero e objetivo, o que é bom para um filme que prima, sobretudo, por ser fonte de diversão fácil ao público, o núcleo californiano parece um pouco mais atado pelo peso de determinadas “obrigações”.

A cena em que Amanda (personagem de Cameron Diaz) descobre que Graham (Jude Law) tem duas filhas é particularmente representativa do quanto a trama londrina é construída em cima de situações e elementos não menos do que certeiros para cativar o espectador. Primeiramente, Amanda vai à casa de Graham porque está arrependida de o ter dispensado. Ele atende à porta acompanhado de duas lindas e amáveis garotinhas, suas filhas. Logo de início, ambas simpatizam com Amanda, que, segundo uma delas mesmo diz, se parece com sua Barbie (a peruísse dela, apesar de escrachada, em nenhum momento deixa de ser apresentada de forma favorável à personagem). Em seguida, Amanda, surpresa, dá um jeito de discretamente perguntar a seu amado sobre seu estado civil. Felizmente para o andamento da trama, trata-se de um homem viúvo, cuja dedicação afetiva está inteiramente concentrada em suas filhas. Todos têm, então, uma ótima noite e Amanda termina tendo conquistado a simpatia das filhas e o amor de Graham, definitivamente. Mais direto, impossível.

No núcleo Los Angeles, ao contrário, a trama se desenrola mais preocupada em expor os personagens a temáticas politicamente corretas, o que não deixa de ser fatal, porque é aí que o filme explicita seus preconceitos e começa a fazer as vezes de fábula moralista.

Kate Winslet, um tanto perdida na trama, encarna Iris, boa moça prestativa que, após uma dolorosa decepção amorosa em Londres, refugia-se de férias em Los Angeles. Nesse tempo, acaba conhecendo Arthur (Eli Wallach), um ex-roteirista da época de ouro dos filmes hollywoodianos. Obviamente, esta amizade termina por transformar a vida de ambos e suas percepções sobre o mundo. Trata-se de um típico encontro cuja única e específica finalidade é instaurar nos personagens o desejo de experimentar o mundo de forma mais otimista. Não deixa, é claro de ser uma forma de o filme se posicionar moralmente, porém, à medida em que ele faz isso se levando excessivamente a sério, a relação que passa a estabelecer com o espectador também se transforma.

A partir daí, o espectador começa a ser conduzido pela trama sob outro viés que não o do simples e descomprometido envolvimento emocional com os dramas e desventuras dos personagens. “Ser conduzido” passa a implicar também em aceitar, por exemplo, Jack Black no papel de um compositor que sempre se dá mal nos seus relacionamentos porque insiste em se envolver com mulheres de “padrões incontestáveis de beleza”. E aí a coisa começa a “descer” de forma um pouco estranha. A trama que, até então, era feliz com sua verossimilhança interna, torna-se inverossímil e canhestra porque começa a querer domar seu tom escrachado com referências de comportamentos externos ao filme – e presente talvez apenas nas referências morais da diretora-roteirista. Não à toa, o casal Jack Black e Kate Winslet não “decola”, pelo contrário, ao final do filme, a impressão que fica é que eles acabam juntos apenas para não sobrar, o que, aliás, parece ser impensável para os padrões Nancy Meyers.

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