TIME - O AMOR CONTRA A PASSAGEM DO TEMPO:


Fonte: [+] [-]
Original: Shi gan
País: Coréia do Sul
Direção: Kim Ki-Duk
Elenco: Ha Jung-Woo, Park Ji-Yeon, Seong Hyeon-a, Seo Yeong-Hwa.
Duração: 97 min.
Estréia: 15/12/06
Ano: 2006


O mal talvez já esteja feito


Autor: Cid Nader

O diretor coreano mais conhecido no ocidente – o que não quer dizer que seja o melhor ou o mais original, mas com certeza o que consegue mais aceitação por parte de um público mais leigo (aquele que gosta do bom cinema, mas não tem acesso a tudo que é produzido por lá, por exemplo) e também dos distribuidores e dos curadores dos grandes festivais – parece ter recobrado um pouco a consciência (um pouco), após o atentado à inteligência e ao bom senso com o qual danificou sua carreira de maneira quase sem volta, denominado: “O Arco”. Realmente, há que se considerar que ele não angaria a simpatia ou compreensão de parte da crítica desde sempre, o que faz com que tal segmento indique o filme (O Arco) como uma continuação natural de uma carreira desastrosa e enganadora. Não me estenderei, no momento, a respeito dessa controvérsia de opiniões, mas deixo claro que mantinha o diretor em alta estima até bem pouco tempo – dúvidas surgiram com “Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera”, e o terror se abateu definitivamente sobre minha cabeça com a produção já citada acima.

Temos agora à mão uma nova possibilidade de avaliar e tentar definir com mais segurança o diretor: “Time”. Temos? Mais ou menos. Kim Ki-Duk retoma muito de suas repetições, estilo e símbolos nesse filme. Estão lá: o conflito eterno - embora não tão ostensivo e nem tão aparente –, que faz da coreana uma civilização à parte quando comparada às outras da região, com seu comportamento anormalmente agressivo e expansivo em contraste com momentos de serenidade zen, mais a calhar como estereótipo dos extremos-orientais (dizer que a Coréia é um país de formação cristã e budista resulta uma boa tentativa de explicação); o estilo de montagem com algumas pequenas elipses – trata o tempo, sempre, de maneira particular -; o amor num eterno processo de tortura mesclado ao prazer; resoluções inusitadas se observadas por padrões “comuns” de compreensão... É mais ou menos isso. “Time” nos traz um diretor que se repete, mas que tem algo a dizer – ao contrário de “O Arco”, que era de um vazio espetacular em sua pseudo-simbologia e pseudo sub-leitura.

Fala de pessoas insatisfeitas consigo mesmas e, conseqüentemente, com suas relações amorosas, encontrando como possível solução para tais dilemas a transformação física, que traz a reboque, evidentemente, toda uma reestruturação psicológica – como se realmente pudessem acreditar na sua transformação “total” em outra pessoa. Evidencia as reações extremadas – explosões temperamentais, ciúme doentio e sem razão, agressividade física – de seus personagens, que se comportam durante todo o filme como orientais dispostos, a qualquer momento, a cometer um suicídio ou um assassinato, por amor, que seja.

Talvez seja importante mais uma interrupção para um aposto: o cinema japonês, de caminho mais antigo pelo ocidente, tem obras, entre suas maiores, que notabilizaram amores “sanguinários”, intempestividade acima do que se poderia supor, o que acabou por criar algumas personagens que se fixaram como marcos na história do cinema mundial. Só para citar um exemplo bem mais conhecido, a prostituta Sada de “O Império dos Sentidos”, de Nagisa Oshima.Um fato que denota que reações tão humanamente extremadas são corriqueiras em qualquer civilização e o que poderia diferenciar sua maneira de exteriorizá-las seria, justamente, um freio criado por cada uma das “religiosidades” vigentes que, no caso japonês, isola tais comportamentos no segmento da arte, ao contrário do coreano, que prefere “executá-los”, “latina/catolicamente”, no dia-a-dia mesmo.

E “Time” cria momentos de ações, que se aproximam de um modo budista de observar (olha a religião aí, novamente), de cercar, de não aparecer, mas com evidentes dicas de que alguma presença está de soslaio – momentos em que o filme quase se veste da aura espiritual mais inclinada ao leste. É uma obra que se aproxima mais do que eu imaginava de Ki-Duk há um tempo atrás; mas um certo mal já está feito e uma desconfiança danada continua a me rondar; o suficiente para não apreciá-lo como grande trabalho.
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