007 CASSINO ROYALE:


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Original: Casino Royale
País: EUA / Reino Unido
Direção: Martin Campbell
Elenco: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Judi Dench, Jeffrey Wright, Giancarlo Giannini, Caterina Murino, Simon Abkarian, Isaach De Bankolé, Jesper Christensen, Ivana Milicevic, Tobias Menzies, Claudio Santamaria.
Duração: 144 min.
Estréia: 15/12/06
Ano: 2006


Cassino Royale: Royal Flush


Autor: Fábio Yamaji

Nada como reformular uma série pra dar novo fôlego a ela, após 20 filmes (o primeiro é de 1962), 5 atores no papel central e um hiato de 4 anos sem o agente secreto britânico na telona. E que fôlego! Terminada uma seqüência de 4 filmes estrelados pelo irlandês Pierce Brosnan, cuja qualidade vinha decaindo progressivamente à medida que a pirotecnia injustificada só aumentava, eis que nos deparamos com um 007 um tanto áspero e obscuro, numa trama mais pé no chão, mas não menos espetacular. É seguramente um dos melhores da série (só o tempo dirá se é o melhor, coisa que acho muito possível) e com certeza o mais complexo.

Adaptação do livro homônimo de Ian Fleming que deu origem à série, “Cassino Royale” traz James Bond em sua primeira missão como agente do MI6, o Serviço Secreto Britânico (existe uma outra versão, adaptada como paródia em 1967, estrelada por David Niven e grande elenco – um ‘bootleg’ da série oficial). Trata-se portanto do surgimento de 007, posicionando-o cronologicamente como o número 1 dos 21 filmes, ainda que ambientado nos dias de hoje. Esta versão traz um Bond mais atlético e rude, mas também mais humano e misterioso. E ainda assim sofisticado e com um humor bastante peculiar. Consideravelmente diferenciado do favorito Sean Connery, do sarcástico Roger Moore, do casamenteiro George Lazenby, do insosso Timothy Dalton e do metrossexual Pierce Brosnan.

Quem passa essa complexidade ao personagem é o ator inglês até então desacreditado para o papel Daniel Craig. Você o conhece de papéis secundários em grandes produções de Hollywood, como “Tomb Raider”, “Estrada para a Perdição” e “Munique”, e como protagonista de pequenos bons filmes ingleses, casos de “Amor para Sempre” e “Nem Tudo É o que Parece”. O rapaz dá conta com sobras, se mostra à vontade na pele de um ícone consagrado, deixa aflorar um lado mais sofrido e ainda assume com firmeza a deliciosa desconstrução de hábitos do personagem promovida por este novo filme (a mais saborosa delas envolvendo seu famoso martíni; além da ausência do bordão ”My name is Bond. James Bond” ao longo do filme).

“Cassino Royale” coloca 007 no encalço de Le Chiffre, banqueiro dos maiores terroristas do mundo (papel do dinamarquês Mads Mikkelsen, o padre do bizarro “Adam’s Apples” – Mostra de 2005). O ápice da ‘luta’ entre os dois acontece num milionário jogo de pôquer em Montenegro, onde a vitória de Bond é decisiva para a resolução do caso. É um momento de tensão explícita, nervoso, que diferencia este filme dos demais da série (e do gênero): o principal confronto entre os inimigos ao longo da trama se dá em torno de uma mesa, um sentado de frente pro outro, na companhia de outros jogadores, em ambiente de gala bebendo drinks sofisticados, cercados de gente comum e submetidos a regras rígidas onde a trapaça não é permitida – pelo menos no âmbito do jogo. É também nesta seqüência que brilha escandalosamente a presença de Eva Green (a deusa francesa de “Sonhadores”), como a contadora do ministério da Fazenda Vesper Lynd, responsável pelo cacife de jogo de Bond - e por tabela objeto de desconcentração geral no salão principal do cassino. Ahhh Eva…

Mas esta não é a única seqüência antológica de “Royale”. A perseguição no canteiro de obras em Madagascar, logo no começo do filme, é a mais eletrizante que me lembro ter visto. Marca a força do novo Bond e de quebra rende boas risadas. Já a cena da tortura é capaz de afligir o mais insensível dos machos, mas, olha só, não tanto as mulheres. E dá-lhe risos nervosos. E tem ainda os deliciosos diálogos entre Vesper e Bond, o aeroporto, o Aston Martin, desfibriladores, Veneza, Solange, ahhh Solange… A Guerra Fria definitivamente não está fazendo falta a 007. E com “Cassino Royale” o personagem ganha novo impulso para continuar com vigor a série de maior sucesso na história do cinema.

Deve-se destacar ainda os créditos iniciais, com uma composição belíssima de motion graphics, rotoscopia e toon shades, e a música-tema que a acompanha, composta por Chris Cornell (do Audioslave e Soundgarden), mantendo em alto nível a tradição de aberturas e canções de 007.
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