SOMBRAS DO PASSADO:


Fonte: [+] [-]
Original: Schatten Der Zeit
País: Alemanha
Direção: Florian Gallenberger
Elenco: Tannishtha Chatterjee, Prashant Narayanan, Tillotama Shome, Irrfan Khan, Tumpa Das, Sikandar Agarwal.
Duração: 122 min
Estréia: 08/12/06
Ano: 2004


A máscara do estereótipo


Autor: Cid Nader

Talvez seja o caso de se tentar compreender esse filme, “Sombras do Passado”, como um produto destinado ao menos exigente dos públicos, constituído por fãs de novelas impiedosas com os personagens, ou – melhor e mais especificamente ainda - fãs daqueles produtos mais "chorosos" oriundos da extensa produção de Bollywood. Sei que parece politicamente incorreto tentar classificar “tipos” de público e, ainda mais, dotando-os com pressuposições que tendem a diminuir seu modo de observar e compreender - no caso aqui, a arte. Mas esse tipo de divisão ocorre – e sempre ocorreu - de lado a lado, e faz parte de um jogo de compreensão humana que deveria prescindir de maiores ressentimentos ou tentativas de processos, agressões e afins, quando se nota razões mais “mundanas” em seu modo de desenvolvimento. Aliás, o tal do politicamente correto, por vezes, extrapola o bom senso, e o que deveria ser a sua real razão de existir – a defesa dos direitos humanos totais, que vem da raiz, da constituição, da formação genética, ou religiosa, ou ancestral – é levado ao grau da insanidade rancorosa, ultrapassando invariavelmente o bom senso, o bom humor (o bom “humanismo”), e derivando para atitudes taciturnas e ríspidas, a tal ponto, que acaba por revelar (entre linhas) quem verdadeiramente anda com o “mal juízo” ou “má vontade” na cabeça.

Mas voltando ao filme e sua origem: a Índia é considerada um dos maiores produtores de cinema do mundo. A grande maioria dessa extensa produção é originada em Bombain, uma verdadeira fábrica de filmes de baixo orçamento e alta temperatura emocional, que objetiva alcançar uma enormidade de público local - o país já está na casa aproximada de um bilhão de habitantes -, sempre predisposto a se desmanchar em lágrimas, ou cantar alegremente defronte das telas de cinema. Repete-se lá, o fenômeno de nossas novelas por aqui - ou das mexicanas, ou das colombianas. Por razões muito particulares a preferência nacional – lá – optou por desgastar as emoções populares dentro de salas de cinema e o fato de terem se utilizado da enorme região de Bombain para isso, fez com que surgisse, em algum momento, a carinhosa alcunha de Bollywood (numa fusão de nomes que dispensa maiores explicações).

Mas, voltando mais especificamente ainda ao filme e sua origem: essa produção, na realidade, não é produto de Bollywood; é sim um filme alemão, com produção alemã e dirigido por um diretor alemão, Florian Gallenberger. E aí a coisa começa a ficar feia. O filme talvez seja o maior amontoado do pior clichê que se possa imaginar, a que tive a oportunidade – ou o azar – de ver nos últimos tempos. Tentando embarcar na canoa da “pureza” que é uma das maiores motivadoras no momento em que se pensa em filmes naquela região do planeta, o alemão Gallenberger conseguiu criar uma caricatura da caricatura. Sem o tipo de raciocínio do povo indiano, sem os mesmos princípios, sem o mesmo tipo de “criação”, imaginando seu trabalho “indiano” com um desenvolvimento cerebral cunhado pelo mais concreto dos “ocidentalismos”, seria óbvio que o que conseguiria seria uma estereotipização total, de uma manifestação cultural que já caminha sobre estereótipos, mas que é “sincera” quando confecciona filmes particulares. Ele se utilizou de tudo que imaginamos comum quando pensamos em uma “novela mexicanizada”, sem pudor e sem perceber que, do lado de lá, quando os indianos pensam em cinema/novela utilizam outros meios de compreensão; outras ondas de entendimento humano, inclusive.

Se utiliza, irresponsavelmente, de uma das piores “tradições” de lá, que é a da venda dos filhos quando a necessidade econômica aperta e se faz desumana a mais. Conta a história de duas crianças que trabalham em regime de escravidão, Ravi e Masha, que acabam por se unir para se defenderem, e se prometem para o futuro, e se desencontrarão e ficarão adultos e... Coisa mais batida impossível; mais previsível do que alguém poderia ousar imaginar antes de ver o filme. Com música única repetida infinitamente, com o avançar e os desencontros marcados na ponta do lápis, com a bondade irretocável de uns e a maldade, também irretocável, de outros. Clichê, estereótipo, horrível. Mas consegue atingir o inferno ao tentar se vender como obra de origem de um local que imagina a vida por outros parâmetros, de um povo que exterioriza suas sensibilidades por outras vias. Resta uma lição, quando a gente acaba por perceber que o ser humano é único na sua formação molecular, genética, mas é totalmente diverso no que mais interessa: na essência, no modo de compreender, de se expressar.
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