SÓ DEUS SABE:


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Original: Sólo Dios Sabe
País: Brasil /México
Direção: Carlos Bolado
Elenco: Alice Braga, Diego Luna, Claudette Maillé, Jaime Bernardo Ramos, José Maria Yazpik, Renata Zhaneta, Brian Runser, Jonathan Kakacek, Leigh Crow, Damián Alcázar.
Duração: 105 min.
Estréia: 08/12/06
Ano: 2005


Nem Alice Braga salva


Autor: Cesar Zamberlan

“Só Deus Sabe” é um filme perdido no espaço e deixa o espectador tão à deriva quanto as suas personagens na pretensão de casar elementos de duas culturas, Brasil e México, sobretudo, no que tange à religião, usando uma linguagem moderna, mesclando imagens captadas em diferentes formatos, e uma trilha sonora eclética à cargo do músico Otto.

O filme começa em San Diego nos EUA; atravessa a fronteira do México; fica preso em Tijuana; segue via terra até a Cidade do México; de lá, voa para São Paulo; dai para Salvador e volta a São Paulo onde se estabelece.

Essa peregrinação, que parece servir mais a idéia de expor culturas e locais diferente do que há uma necessidade justificada da trama, acaba desnorteando o espectador que, como as personagens, fica à mercê de uma série de reviravoltas pouco verossímeis para dar um pouco de tensão que o filme não consegue criar em momento algum e assim tentar amarrar uma história que é totalmente frouxa: o roubo e toda a história do passaporte, a coincidência de datas entre a chegada das personagens às cidades e a realização de festas religiosas, a história da avó de Dolores, a gravidez, doença etc são exemplos da falta de coesão da trama.

Até poderia se dizer que o filme parte e defende a premissa que os caminhos a serem seguidos aqui na terra já estão traçados, que não há acaso e que estamos sujeitos ao destino que alguém escolheu para nós. O título “Só Deus sabe”, a fala de Damián (Diego Luna) para convencer Dolores (Alice Braga) quando vem ao Brasil para reconquistá-la e a decisão de Dolores de não interromper a gravidez, colocando a escolha dos deuses acima da ciência, confirmariam a tese. Mas, a tese, igual ao roteiro, é frouxa demais para justificar a falta de direção do filme. Até porque se na vida – hipótese do filme – alguém nos governa; no filme, reina o caos e o filme-diretor parecem tão perdidos quantos nós.

Em alguns momentos, a figura luminosa, sensual e divina – com o perdão do trocadilho – de Alice Braga até consegue nos prender a história. Falando inglês, espanhol e português, Alice confirma o talento de “Cidade Baixa” e é o contraponto à figura insossa e ainda púbere de Diego Luna que parece recém saído de “E sua mãe também”. Com ele, o filme e o casal ficam desequilibrados (Difícil crer que uma personagem como a de Dólares se interessaria por um garoto como ele).

“Só Deus Sabe” é um filme todo desencaixado que trabalha a questão do deslocamento, da descoberta da religiosidade diante do desterro e da orfandade, mas não nos consegue nunca nos fazer crer nessa busca e na convicção dos personagens diante da fé que dizem possuir.

Um filme que não nos toca na sua babel de línguas, linguagens e culturas. Resta Alice Braga, mas ela só não basta.
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