O ILUSIONISTA:


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Original: The Illusionist
País: EUA / República Tcheca
Direção: Neil Burger
Elenco: Edward Norton, Paul Giamatti, Jessica Biel, Rufus Sewell, Eddie Marsan, Jake Wood, Tom Fisher, Aaron Johnson, Eleanor Tomlinson, Karl Johnson.
Duração: 110 min.
Estréia: 08/12/06
Ano: 2006


O falso esperto


Autor: Fernando Watanabe

Ou, o esperto falso? Em “O Ilusionista”, tudo parece premeditado para arquitetar um engenhoso jogo de falsários que irá ser revelado ao final. Espera-se que a revelação que traz à tona a verdade culmine em emoção. Como se um dado final que muda completamente a leitura do filme que acabamos de ver fosse sinônimo de prazer e reverência diante da esperteza do roteiro. No cinema norte-americano atual, M.Night Shyamalan realiza com sucesso esta operação em todos os seus filmes – com exceção de “A Dama da Água”. O problema está quando este recurso é utilizado de forma banal, como saída fácil.

Um típico filme médio norte-americano. Por filme médio entenda-se um trabalho feito dentro dos moldes da grande indústria e cujo sucesso é determinado quase que exclusivamente pelos números de bilheteria. Ainda assim, há um pretenso “refinamento” que o distingue dos blockbusters e das (re)produções cotidianas requentadas. Esse pretenso adicional artístico está na escolha de uma obra literária reconhecida ("Eisenheim the Illusionist", de Steven Millhauser, prêmio Pulitzer em 1997) como material base para o roteiro, na seleção de Edward Norton - que já fez trabalhos relevantes no cinema independente norte-americano - para o papel principal e pela suntuosidade e luxo da cenografia.

Espera-se nesse tipo de filme que a história de amor de Eisenheim se misture organicamente a seu objetivo maior, a alguma luta. Mas aqui não há luta alguma, Eisenheim nos é apresentado como um ilusionista que de forma rotineira desenvolve seu trabalho. A grande e exclusiva motivação de suas ações está no seu amor, a duquesa. Por ela, Eisenheim fará de tudo: inventará novos truques, desenvolverá uma revolucionária idéia de espiritualidade (sobre a qual o filme passa voando), matará, ludibriará a todos. Até mesmo a nós, os coitados dos espectadores, que ficamos quase 2 horas vendo uma história ser contada para no final recebermos do filme algo como: “tudo o que vocês viram foi uma ilusão, trouxas”. Ora, se pagamos ingresso para ver um filme desse gênero nós estamos literalmente comprando a ideologia sobre a qual ele funciona. Queremos acreditar nas ficções. Se o diretor, ou produtor, ou seja lá quem for a máquina sádica por trás de “O ilusionista”, debocham de nossa cara ao final, o que resta é a revolta.

E Eisenheim sai vitorioso ao final, depois de matar, ludibriar os inimigos, os amigos, e os espectadores. Eticamente, vale tudo por um amor? Aquele que acreditamos que era nosso herói deixa de sê-lo ao sabermos de suas mutretas? Não é o amor que vence, mas sim o cinismo. No cinema americano atual, não há outra opção de se fabricar filmes que não a abordagem fácil do cinismo autoconsciente? Com certeza há. Porém hoje, infelizmente, o lucro comercial rápido está desvinculado da novidade, e até mesmo variações criativas baseadas nos modelos estão se esgotando. Aguardemos então os números do ilusionista.

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