FILHOS DA ESPERANÇA:


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Original: Children of Men
País: EUA/Inglaterra,
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Charlie Hunnam, Claire-Hope Ashitey, Pam Ferris, Danny Huston, Peter Mullan.
Duração: 109 min.
Estréia: 08/12/06
Ano: 2006


Não me convence


Autor: Cid Nader

A maior certeza que resta após a exibição de “Filhos da Esperança” é a de que, alguns serão “pegos” totalmente pelo filme – terão chorado e ainda estarão enquanto saem da sala de cinema – e dirão que viram um dos melhores filmes de suas vidas, outros – os que não comprarão a idéia – sairão com cabeça baixa, pensamentos céticos dirigidos a um questionamento sobre “como o diretor mexicano Alfonso Cuarón é cara-de-pau”. Quando li algumas palavras do diretor em defesa de seu trabalho e das verdadeiras razões que o nortearam a confeccioná-lo, e quais os reais objetivos que deverão ser alcançados com a empreitada, a certeza de que o filme não me agradava mesmo ficou mais nítida do que nunca. Ter que dizer textualmente, em entrevistas, que seu filme tem várias maneiras de ser entendido, é “escrito” com sub-textos, que toca nos assuntos importantíssimos das ideologias massacrantes, do isolamento humano dentro de “uma bolha confortável”, se utilizando para isso de ícones absolutamente reconhecíveis e com a “sacadinha” de transportar as discussões para um futuro não tão distante, mas sombrio pelo que de pior poderia acontecer á humanidade - no filme as mulheres são inférteis já há quase vinte anos -; porém... ainda resta a “esperança”. Muito bem. Tudo se encaixa. Para mim é trabalho de teor estético e profundo como o... nada.

O diretor, trabalhando com muita grana no bolso, numa produção britânica, com atores de língua inglesa – e famosos – como seus protagonistas, parece querer renegar a “pátria”. Mostra-se um autor sem raizes definíveis ou compreensíveis, pois trabalha num outro patamar de condução. Não daria para dizer, em sã consciência e com um razoável conhecimento da obra do autor, que se trata de filme de sua autoria. Para falar a verdade, nada contra diretores que não mantenham uma unidade de estilo em suas carreiras – até porque, imagino, a melhor coisa é quando se avança na procura. Nada contra diretores que podem trabalhar com folga orçamentária, atores famosos, e grandes possibilidades de ver um trabalho seu alçado a outros “níveis” de distribuição mundial. O que incomoda mesmo, é que alguns diretores se saem melhor que os outros quando dão essa “guinada” na carreira. Só para citar um exemplo de situação semelhante: o nosso Fernando Meirelles, quando realizou “O Jardineiro Fiel”, cooptado ao mesmo modo, não renegou sua autenticidade – pelo bem ou pelo mal, vejam bem – e saiu-se dignamente da jornada. Não “abraçou” a causa de ter de se explicar por palavras e não sucumbiu à mesmice da rasa profundidade de sub-textos, dentro de uma história chinfrin.

Cuarón adornou seu filme com uma trilha sonora das melhores – rock do bom; do bom mesmo. Colocou três grandes atores como eixo principal para segurar o quesito interpretação – Clive Owen, Julianne Moore e Michael Caine. Aliás, foi até fiel a seu discurso comum que o evidencia – por outras circunstâncias - como um dos batalhadores das causas mais “humanitárias”. Aliás, novamente, – e agora parece que estou me entregando de calças curtas -, manteve uma característica sua que é a da captação de imagens por câmera veloz (câmera no ombro), dizendo que com isso daria uma impressão maior de integração da platéia à ação. Mas todo o princípio já nasce estragado. A gratuidade na invenção do tema, as conseqüências que advêm de todo esse petardo que se estende por quase duas décadas e as mesmas guerras que perduram. As soluções e os “inbroglios” que se avolumam com o “desmascaramento” de cada setor envolvido na história. Mesmo alegando as suas sub-intenções por trás de tudo – e pior, se sentindo na necessidade de ter de fazê-lo, volto a dizer, textualmente -, a sensação que me ficou foi a de que estava assistindo a um sub “Blade Runner” mesclado com um sub “A Última Esperança da Terra”.

Me senti vendo uma obra de um diretor garoto ainda, inocente, querendo mostrar serviço. Que se denuncia ao ter de se explicar, e também quando opta pela repetição de um tema meloso nos momentos derradeiros da história. Se há a última seqüência, até bonita e capaz de emocionar a quem se dispuser a ser “emocionado”; se há um momento em que o “Filho do Homem” - título original, no singular, afinal – aparece e nos vêm à mente o mote bíblico, “cessem as guerras que o filho do Homem chegou”; há toda história para desabonar; há toda uma má realização para não me fazer botar fé.
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A câmera do impacto