OLHAR ESTRANGEIRO -UM PERSONAGEM CHAMADO BRASIL:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Lúcia Murat
Elenco: Documentário
Duração: 71 min.
Estréia: 01/12/06
Ano: 2006


Contra a parede. Para quê?


Autor: Cid Nader

"Há alguns anos, uma pesquisa feita na Noruega registrou, como impressionante resultado, que o maior sonho daquele povo de lá era o de passar o Natal em uma praia paradisíaca, com sol escaldante, amenizado pela sombra de coqueiros".

Interessante olhar com calma e distanciamento o efeito que a diretora Lucia Murat causa a seus entrevistados no documentário, "Olhar Estrangeiro", quando questiona sobre seu conhecimento a respeito da cultura e hábitos brasileiros, contrapondo às respostas evasivas, imagens e fatos "cinematográficos" com os quais estão de alguma maneira envolvidos, e que refletem que em algum momento de suas existências - ao menos em algum momento - pisaram feio na bola, e entenderam nosso país de maneira completamente equivocada; para dizer o mínimo. Não é raro nem novo o modo como nosso país é enxergado pelas nações mais "civilizadas" - como não é novidade, também, a ignorância demonstrada por eles a respeito de quase qualquer outro assunto relacionado aos países mais distantes e "inexpressivos". O Brasil, então, é visto já há tempos como símbolo de exotismo, sensualidade e modo de "bom viver", com sol eterno, praias paradisíacas repletas de mulheres semi-nuas, floresta ali na esquina e um lugar adequado como bom refúgio para larápios de variadas espécies. Alguns trechos de filmes mostrados no documentário, juntados a "opiniões" nada confiáveis dos estrangeiros "enquadrados" pela diretora, chegam a causar arrepios naqueles de alma mais ingênua e comportamento mais rígido, menos malemolente, prestes ao eterno avançar na goela dos exploradores e colonizadores estrangeiros quando qualquer opinião errada e equivocada é explanada para referir o quanto nos compreendem e são apaixonados "pelo nosso bom e sensual jeito".

A parte documental do trabalho é repleta de imagens de filmes que "evidenciam" o quanto esses estrangeiros não entendem nada de nosso país e o quão eles nos imaginam depravados. Ela utiliza trechos do risível mega-sucesso de bilheteria "Anaconda", o erotismo inacreditável de "Orquídea Selvagem" ou "Lambada, a Dança Proibida". Na parte jornalística – repórter investigativo – pressiona contra a parede pessoas envolvidas com algumas dessas produções equivocadas: Charlie Peters, roteirista do filme "Feitiço do Rio" dirigido por Stalen Donen; David Weisman, produtor de "O Beijo da Mulher Aranha; Hope Davis, atriz de "Próxima Parada, Wonterland"; Jonh Voight, ator, que cita o Brasil do "cha-cha-cha" em uma cena de "O Campeão" e atua, também em "Anaconda"; ou Michael Caine, que atua em "Feitiço do Rio"; por exemplo.

Quando citei no início do texto que seria interessante observar com calma a maneira como a diretora conduziu esse documentário, já estava antecipando que o resultado e os métodos utilizados para alcançá-los me soaram pífios e desnecessários. A obra resultou numa espécie de "nada de novo resultará dessa minha investida; não me perguntem qual era meu objetivo quando resolvi fazer esse trabalho". O que acontece é que o filme aparece deslocado no tempo e sem algo mais palpável ou conclusivo obtido ao final de sua jornada. Discutir a maneira como somos encarados por produtores ou realizadores é assunto antigo que, ressuscitado, do modo como o foi por Lucia Murat, passa a impressão do "sub-desenvolvido", do ex-colonizado, do terceiro-mundista, que num acesso de rancor infantil vai jogar na cara dos ofensores que eles eram burros, e que "fizeram muito mal à gente por não terem nos respeitado em nossas individualidades e nossas verdades". Trazer aos dias de hoje tal tipo de discussão, pré-suporia uma análise mais aprofundada dos "por quê", e uma investida um tanto mais criteriosa ao âmago da questão. Ao contrário, e ao pior estilo inconseqüente e "baixo-sensacionalista" criado pelo documentarista Michael Moore, sente-se que o prazer da diretora está em encostar os protagonistas dos enganos contra a parede, para jogar em suas caras algumas verdades que acabarão por deixá-los constrangidos ante a constatação de sua ignorância. Fica nítido que o grande prazer da diretora é ver a cara de espanto dos entrevistados quando pegos de calças curtas quando sua "ignorância" lhes é revelada por ela. Fica nítido o tom de aproveitamento gratuito do assunto, quando o foco é alongado em cima dos famosos, enquanto, paralelamente, entrevistados comuns, povo desconhecido, pessoas da rua, dão uma opinião única e fortuita sobre como entendem nosso país; rapidamente, em alguns poucos segundos. Se o documentário tivesse intenção mais séria de escarafunchar o assunto, os "comuns" transeuntes teriam que ser mais explorados, até porque algumas indicações mais interessantes saíram de suas bocas.

Citei uma pesquisa no início que, invertida, poderia indicar que o sonho de um monte de moradores de regiões paradisiacas quentes do planeta é o de passar o Natal sob neve e ouvindo músicas natalinas entoadas "por anjos", na Noruega ou países similares...
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