O LABIRINTO DO FAUNO:


Fonte: [+] [-]
Original: El Laberinto del Fauno
País: México/Espanha/EUA
Direção: Guillermo del Toro
Elenco: Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López, Ariadna Gil, Maribel Verdú, Álex Angulo, Roger Casamajor, César Vea, Federico Luppi, Manolo Solo
Duração: 112 min.
Estréia: 01/12/06
Ano: 2006


Labirinto do Fauno: “A vitória da inocência”


Autor: Leonardo Mecchi

Em sua origem, os contos de fadas nada tinham de infantil. Eram relatos orais que tratavam de antigos e profundos medos humanos, e não raro incluíam em suas narrativas temas como estupro, assassinato e canibalismo. Foi só a partir do século XVII que, devidamente suavizados e adaptados, os contos de fada tomaram a forma de literatura infantil sob o qual os conhecemos hoje.

Pois é nessa natureza hedionda dos primeiros contos de fadas que Del Toro foi buscar a ambientação para sua fábula de horror sobre a dualidade da condição humana: dor e beleza, morte e salvação, brutalidade e inocência.

“O Labirinto do Fauno” se passa na Espanha de 1944, ou seja, quatro anos após o fim da guerra civil que levou Franco e o fascismo ao poder. A opção por localizar sua história já dentro do período fascista mostra que, para o diretor, a fantasia não é uma forma de alienação que permitiria a fuga da realidade – e a escolha do retrato da protagonista morta como imagem primeira do filme apenas reforça o peso dessa realidade sobre a narrativa –, mas sim a única resposta possível diante dos horrores da guerra.

A chave para o filme está na personagem de Ofélia, não por acaso o nome da trágica personagem de “Hamlet”. Órfã de pai, Ofélia se vê subitamente instalada em pleno seio do fascismo: sua mãe espera um filho de Vidal, capitão de Franco responsável por combater as milícias que continuam a lutar contra o governo, e por isso muda-se com ela para uma fazenda transformada em quartel-general do exército franquista.

Diante das atrocidades cometidas pelo Capitão Vidal e da gravidez de risco pela qual passa sua mãe, é apenas na fantasia que a pequena Ofélia encontra espaço para exercer sua inocência infantil. Instigada por um louva-a-deus que toma a forma de uma fada, Ofélia aventura-se por um labirinto existente na fazenda que a leva ao encontro de um fauno, figura mitológica que revela que ela é, na verdade, a reencarnação de uma princesa do mundo subterrâneo, a ligação perdida entre um mundo de fantasias e o dos homens – temática comum a vários filmes recentes, como “A Dama na Água” e “A Promessa” (recém-exibido na Mostra).

É a partir deste ponto que Del Toro revela seu profundo conhecimento da estrutura dos contos de fadas. Como grande parte dos heróis desse contos, também Ofélia precisará percorrer um verdadeiro ritual de passagem para a vida adulta – remetendo a obras como “Alice no País das Maravilhas” e “A Viagem de Chiriro” – e precisará superar três desafios impostos pelo fauno para poder finalmente reencontrar sua verdadeira identidade, mágica e imortal. Assim começa a jornada de Ofélia em “O Labirinto do Fauno”, que respeita a estrutura de quatro etapas fundamentais do conto de fadas.

A primeira delas é a travessia, passagem do herói para um mundo diferente, repleto de magia e criaturas estranhas. No filme, essa etapa está representada pelo instante em que Ofélia, ainda a caminho de seu novo lar, restaura uma pequena estátua à beira da estrada e, com isso, abre uma brecha para esse antigo mundo mágico e seus seres.

Realizada essa primeira etapa, os contos de fadas prosseguem para o encontro do herói com uma figura maléfica, que será seu oponente na concretização de seus objetivos. Ironicamente, Del Toro não coloca essa figura arquetípica em nenhum dos seres mitológicos com os quais Ofélia se encontra, mas sim em seu próprio padrasto, personificação absoluta do mal representado pelo fascismo.

A terceira etapa é a conquista. É aqui que o diretor deixa claro seu retrato realista, apesar de todo o mundo de fantasias que criou. Na estrutura tradicional dos contos de fadas, este seria o momento em que o herói inicia numa batalha de vida ou morte contra seu opositor, que inevitavelmente levaria à morte deste. Tal conclusão, entretanto, seria inviável dentro do contexto em que o filme se instala, apontando para uma saída naïf e escapista. O único final possível – já prenunciado na primeira cena do filme – é a morte da inocência.

Apesar disso, ao manter-se fiel à última etapa da estrutura tradicional dos contos de fada – a celebração, onde o herói é recompensado e exaltado por sua vitória –, Del Toro trás uma resignificação daquele instante, uma profissão de fé do diretor no poder da fantasia, da inocência e da beleza contra os horrores que o ser humano é capaz de perpetrar. Por trás de seu horror gótico, “O Labirinto do Fauno” se revela, ao final, uma bela e singela fábula humanista.
Leia também:


Para estômagos fortes