A VIDA SECRETA DOS DENTISTAS:


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Original: The Secret Lives of Dentists
País: EUA
Direção: Alan Rudolph
Elenco: Campbell Scott, Denis Leary, Robin Tunney e Hope Davis
Duração: 105 min
Estréia: 01 de julho
Ano: 2002


A gengivite do olhar


Autor: Érico Fuks

Seria ingênuo, se não fosse honesto, dizer que o filme trata seus dilemas da boca pra fora. A Vida Secreta dos Dentistas, baseado no romance The Age of Grief, de Jane Smiley, tem em sua abertura cenas inóspitas de arcadas dentárias, com uma locução em off esmiuçando cientificamente sua composição estrutural.

Algumas culturas milenares se apóiam na crença de que você é o que come. Este longa vai além, insinuando que a personalidade do indivíduo baseia-se no status quo de seus sisos e caninos, na quantidade de vezes em que se escova os dentes e no número anual de visitas aos odontologistas de plantão. Essa radiografia social de dissecação dos comportamentos humanos observa-se na própria montagem do título do filme. Durante alguns segundos, congela na tela a palavra "secret", algo muito mais relevante do que "dentist" e até mesmo "life", dentro do contexto inicialmente esboçado.

Daí dá pra se ter uma boa idéia do ponto de partida dessa história. As relações humanas estão com cárie. Há indivíduos "dentes tortos" que nunca se endireitam, numa análise mais determinista.

Tudo começa pela boca. Um beijo apaixonado é o início de um relacionamento mais sólido. Uma boa conversa é o pontapé inicial de uma amizade ou de uma conquista. Todavia, tudo termina por essa cavidade labial também. Uma briga, uma ofensa, até mesmo as gritarias de um desmoronamento familiar.

A história se inicia em seu, digamos, mar de rosas ou anti-séptico bucal. David Hurst é um dentista bem-sucedido, tranqüilo, feliz da vida com seu ofício e sua família. Tem uma assistente simpática e comunicativa, divide os instrumentos cirúrgicos com sua esposa e tem orgulho de suas três filhas. Certo dia aparece em seu consultório um paciente nada paciente, Slater, um trompetista que vive de suas habilidades com a boca pra tocar o instrumento e ganhar dinheiro.

Em outro momento do filme, começam a aparecer os germes. David flagra sua esposa, que adora cantar em ópera, numa cena suspeita dentro do camarim, e aí começa a desconfiar que ela está tendo um caso. Durante o pacato dia-a-dia da família "comercial de margarina", começam a surgir evidências cada vez mais gritantes que confirmam essa desconfiança.

Daí pra obturação é um pulo. Tudo começa a degringolar, e as opções do diretor embarcam nesse caos salivar. Slater assume o papel de uma espécie de conselheiro matrimonial imaginário de David. Seus palpites não são nada ortodoxos. É o tal do "diabinho" sobre o ombro do protagonista, numa representação pictórica conhecida.

A intenção de fundir o real e o imaginário como proposta de diluir a bagunça é até boa, se não fosse tão amena. Se fosse menos conceitual, Rudolph poderia ser mais radical em suas opções, podia pegar mais pesado. Afinal de contas, as reações humanas, as atitudes e os traços comportamentais de um núcleo social não são tão imiscíveis assim. Tudo funciona dentro de um amálgama em que não se definem os limites do desejo, da raiva, do perdão. E, nesse sentido, a recorrência a um ícone holográfico resultante de um efeito paranóico é bem-vinda. Entretanto, o diretor optou por esclarecer ao invés de confundir, e aí o filme perde sua força. A Vida Secreta está pontuado por elementos cognitivos muito fronteiriços, em que realidade e ficção não se tocam, não se invadem. O papel de Slater está muito mais para a representação de uma crise de consciência do que para a necessidade interior e pulsante de ligar o "dane-se".

Poderia ousar mais, mas o diretor entra na vala comum na maneira em que retrata o mar de lama de uma sociedade neurótica e pútrida. Peca por seus exageros indecifráveis, como uma incontinente regurgitação coletiva, que tem efeito muito mais estilístico do que ideológico. Seria a solução para expiar a culpa através da boca? Rudolph mostra a doença, isso é fato. Mas trata de seus sintomas de modo anestésico, dando a suas crias com mau-hálito apenas um pouquinho de flúor.

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