O CROCODILO:


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Original: Il Caimano
País: Itália
Direção: Nanni Moretti
Elenco: Silvio Orlando, Margherita Buy, Jasmine Trinca, Michele Placido, Giuliano Montaldo, Antonio Luigi Grimaldi, Nanni Moretti, Paolo Sorrentino, Elio De Capitani, Tatti Sanguinetti, Jerzy Stuhr.
Duração: 112 min.
Estréia: 08/12/06
Ano: 2006


"O Crocodilo" - Sai de baixo


Autor: Cid Nader

Fazer cinema político é coisa antiga na arte. Acontece, que o “cinema engajado”, com opiniões radicais e ideologias explicitadas, ataques a instituições ou momentos históricos, países, regimes ou detentores do poder, normalmente pressupõe construção “séria”, extremamente idealizada e de aparência compreensivelmente ranzinza – taciturna. Nanni Moretti tem um discurso oral bastante agressivo, de postura definidamente de esquerda, que não deixa dúvidas sobre o que pensa dos sistemas políticos que vigem nos países mais avançados e capitalistas do primeiro mundo. Acontece, porém, que seu discurso, quando transformado, ou melhor, transportado, para a linguagem do cinema, vem construído de maneira a facilitar a comunicação com o público alvo, com um misto de idéias e “lições” que são espertamente repassadas através de um viés cômico. O diretor em si, apesar da aparência sisuda e cara de poucos amigos, tem o dom da atuação humorística, sabendo aproveitar-se, justamente, dessa feição “cri-cri”, quando cria um contraponto entre ela e o modo de falar, em tom de metralhadora giratória, numa exibição que remete ao humor praticado por Woody Allen – diga-se de passagem: ele, também, de aparência “chata”.

Em “O Crocodilo”, Moretti aparece pouco e destina a função de apaziguador e cômico da vez a Sílvio Orlando, que representa na história um diretor de cinema meio que “underground”, sempre às voltas com novas possibilidades a serem concretizadas, mas que não angaria a simpatia dos credores que cobram mais urgência na realização de novos e “potencialmente rentosos” filmes. O trabalho, na realidade, é um petardo esquerdista contra a nova direita dominante - mais especificamente, contra o primeiro ministro italiano Sílvio Berlusconi -, sua carreira recheada de sucesso financeiro de origem duvidosa e seu posicionamento político/humanista de tez fascista e excludente. Recheado de situações variadas, com a inclusão na película de fantásticos esquetes de “pedaços” de filmes da não tão gloriosa carreira do diretor Bruno Bonomo ( S. Orlando), o filme trata, paralelamente, de situações comuns do dia-a-dia, como a premente separação de Bruno e de sua mulher – com clima de evidente tristeza e inconformismo – ou a procura de um lugar ao sol, da dona do roteiro do filme proposto, Teresa (Jasmine Trinca), que retratará da vida, as picaretagens e o desmandos do primeiro-ministro.

Boas e sensíveis atuações, bons tipos criados e de competente desenvolvimento, ritmo correto e que segura o espectador, atento, à cadeira. Nanni também faz bom uso da música – bastante relevante em sua obra – e surpreende quando utiliza um famoso tema recente de amor, de filme bastante conhecido, numa seqüência singela e esperançosa, com dois carros alternando-se num momento de despedida. A dificuldade de se realizar cinema fora do eixo “Hollywood”, a ingerência belicosa da televisão privada, a vergonha de parte do povo italiano diante das opiniões internacionais de seu “líder”, e um final de composição fake/grandiloqüente, garantem a qualidade desse novo trabalho, de um diretor que insiste em nadar contra as adversidades.
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