A FONTE DA VIDA:


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Original: The fountain
País: EUA
Direção: Darren Aronofsky
Elenco: Hugh Jackman, Rachel Weisz, Marcello Bezina, Alexander Bisping, Ellen Burstyn, Cliff Curtis, Sean Gullette, Mark Margolis, Donna Murphy, Ethan Suplee, Sean Patrick Thomas.
Duração: 96 min.
Estréia: 24/11/06
Ano: 2006


Aberração


Autor: Liciane Mamede

Difícil pensar num elemento em especial do novo filme de Darren Aronofsky que impressione mais. Isto porque as cenas conseguem se superar a cada plano, a cada investida simbólica. “Fonte da Vida” piora a medida em que revela suas intenções e é esse percurso que torna o filme particularmente assustador. A linguagem pretensamente “moderninha” que mascara uma abordagem temática rasa e simplória (quando não moralista), já estava presente em “Réquiem para um Sonho”, filme que revelou o diretor (exibido na 25ª Mostra de SP). Porém, em sua nova obra, tal mistura mostra-se não só de difícil digestão, como também chega a fazer do filme uma aberração. Em partes, porque Aronofsky não consegue amarrar a trama e a linguagem formal que usa para envolver (ou manipular) o espectador. A todo momento a necessidade de fazer uso pirotécnico das possibilidades que tem nas mãos parece ser mais importante do que o processo de construção de sentido de sua narrativa. Os entremeios da trama são tão tortuosos e soltos que tudo parece fugir ao controle.

O filme conta a história de um médico-pesquisador (interpretado por Hugh Jackman) que tenta encontrar a cura para a doença da mulher (Rachel Weisz, em interpretação inesquecivelmente ruim). Paralelamente a isso, o mesmo personagem do médico aparece meditando, atormentado pelo espírito de Weisz, em um cenário cheio de luzes e cores que remete a uma outra dimensão da vida (ou da morte). Elástica, a narrativa ainda comporta a história da rainha espanhola (mais uma vez Weisz) que envia seu amado conquistador de terras (também interpretado por Jackman) para a América, em busca de uma árvore cuja seiva seria ... a fonte da vida. Fator comum nas três histórias, a dualidade temática vida e morte é reafirmada e escancarada cansativamente em cada plano e em cada fala.

À determinada altura, quando já não há mais forças ou disposição por parte de espectador para procurar uma verossimilhança no filme, “Fonte da Vida” acaba se transformando em motivo de chacota. A ostentação técnica soa ainda mais piegas e gratuita quando colocada ao lado de um apanhado de metáforas simplórias – um anel que sela o amor, uma árvore como fonte da vida. Algumas dessas simbologias chegam a ser usadas com descuido leviano. É caso do conquistador espanhol (analogicamente identificado com o médico-mocinho do filme) que mata um ser maia mitológico, guardião do portal que dá acesso à “árvore da vida”, para roubar seu fruto e salvar a vida da mulher amada (a rainha Weisz). Será que tal representação não poderia ser interpretada como uma espécie de legitimação da posse do conquistador branco por meio da justificativa barata do amor redentor? Se sim, então o discurso de Aronofsky pode também ser considerado reacionário e conservador. Mas, há ainda uma outra possibilidade: talvez ele não tenha a mínima idéia do que filma e, mais do que isso, seja apenas uma ingênua vítima da sordidez e da irrevogável verdade (delatora?) das imagens que constrói.

Ainda que essa suposta ingenuidade seja um ponto argumentativo cabível para justificar a ruindade da obra, não há como desconsiderar que ela vale de fato por aquilo que é e representa. “Fonte da Vida” parece apenas uma oportunidade para dar vazão ao ego de seu diretor.

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