HAPPY FEET - O PINGÜIM:


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Original: Happy Feet
País: EUA/Austrália
Direção: George Miller
Elenco: Animação
Duração: 87 min.
Estréia: 24/11/06
Ano: 2006


Dançando com Pingüins


Autor: Cid Nader

Quando inicia com "canções" de acasalamento, paisagens vertiginosas e brancas servindo de cenário para aparições bombásticas, estilosas, "uma" pingüim insinuante e rebolativa e um pingüim cantando com pinta de Elvis Presley, o filme, "Happy Feet – O Pingüim", já começa a dar toda a pinta de que não será uma animação das mais comuns – digamos assim. Já, de início, dá para se perceber que uma opção de estilo inusitada foi adotada para contar a saga desses verdadeiros personagens épicos – dos mais, com certeza, por conta das condições climáticas, das "opções" adotadas com modo de preservação da espécie, de toda uma estrutura de sobrevivência que se aproxima do insano, do "inconcretizável" – que foi a de narrá-la sob formato de um musical. Se bem que não assumidamente por todo o decorrer da história. Quer dizer: o filme tem seus momentos de maior importância "cantados" e "dançados", mas isso não significa que seja conduzido por todo o tempo dessa maneira – como alguns musicais o foram. Ao utilizar a questão da comunicação da espécie como algo singular – cada pingüim tem um único modo de se expressar (como uma única canção) -, utilizado para, inicialmente, atrair a fêmea que será companheira eterna, e, posteriormente, para reconhecimento familiar, o diretor George Miller espertamente intuiu que a música poderia ser também o "modo" condutor da história a ser contada. E assim o fez, criando incontáveis coreografias e, mais do que isso, recheando o filme de inumeráveis músicas "ícones" do pop norte-americano. A qualidade superior de algumas das músicas, por diversas vezes, tem a capacidade de tirar o foco do espectador da trama e dos personagens “penados” para remetê-lo a tempos, locais e modos diversos do que os que regem essa animação.

Aí – justamente no fato de o trabalho ter sido realizado através da técnica de animação – reside um outro grande diferencial desse trabalho; e uma enorme virtude, pelo resultado técnico alcançado. Logicamente que é mais fácil imaginar um filme com roteiro e tudo mais, quando fala de pingüins, feito em desenho ou outras técnicas que dispensem os bichinhos em carne, penas e ossos – até porque imagino que ensiná-los a dançar aquelas coreografias seria um tanto complexo (brincadeirinha). Mas o resultado alcançado pela equipe do diretor George Miller, que trabalhou na parte de confecção gráfica do filme por cerca de quatro anos, é superior. Sei que alguns trabalhos recentes primam pela qualidade cada vez mais notável atingida com o uso dessas novas tecnologias digitais, mas o que se obteve aqui beira o magistral por quase todo o transcurso da trama. As cenas dos próprios pingüins já são esplêndidas por si só – com características próprias, modo de andar, cor dos olhos, manchas diferenciadoras – quando os que protagonizam de maneira mais evidente comparecem frente às lentes de modo muito particular. Os momentos de perseguição, de mergulho em busca de comida – as realizadas dentro da água são especiais de tão primorosas nos detalhes realistas (quando acontece o primeiro mergulho da “garotada” no mar, ou na seqüência em que um leão-marinho persegue um deles, com “tomada” de cima que evidencia o pingüim fugindo sobre o gelo transparente enquanto do outro lado dele, na água, o caçador tenta fazer seu papel) -; a seqüência em que os pingüins machos enfrentam terríveis nevascas para proteger os ovos, enquanto as mães partem em busca de comida, todo esse “lado natureza animal”, enfim, são de qualidade tão anormalmente boa que passa a impressão de que estamos assistindo a seqüências filmadas por algum desses canais especializados. Diria que não há um senão no quesito animação.

Mas os diferenciais da obra se acumulam e avolumam para dar potência definitiva a “Happy Feet”. É um filme para crianças? Sim, evidentemente. Além das próprias aves, existem como atrativo infantil, humor, gags, equívocos, “criancices”. Não seria justo privá-las de assisti-lo. Mas, os temas vão mais além do que historinhas bonitinhas, a ponto de fazer com que a “A Marcha dos Pingüins”, o filme, seja mais recomendável, em ensinamentos pueris do que essa animação. A trajetória do “diferente” Mano, remete à discussão que algumas obras de aparência inocente, fazem de falso pano de fundo no momento de discutir os excluídos, os não normais, os “diferentes” mesmo. Por um problema, talvez surgido na época da gestação, Mano surge no mundo “digno” e orgulhoso dos pingüins Imperador como uma aberração – logo quando nasce já se nota isso – , coisa logo se nota por mostrar-se bastante desafinado e sem jeito com o canto, num fato piorado mais ainda (ante a casta dos orgulhosos membros da tribo) pela insistência dele em dar umas trançadinhas velozes de pé, do nada, que mais à frente revelará a sua real tendência de dançarino em surgimento.

Essa característica que definirá a opção “musical” do filme, vai evidentemente mais além do que um simples – e competentíssimo – modo de atração do espectador. Levará Mano a outras paragens, incluindo na história os outros seres que não “mereceriam” participar de uma história tão “nobre”. O diretor inclui, a partir daí, uma discussão sobre o diferente na sociedade; mais ainda: coloca discussões religiosas e filosóficas na massa desse bolo, ingressando na discussão que abrange a defesa da natureza e as conseqüências das insanidades humanas, nela – essa discussão, talvez de caráter mais apelativo, apesar da importância. Durante toda a seqüência do filme, o mote mais presente e contínuo está ligado à discussão da sexualidade, das obrigações familiares e dos modos de conquista – assuntos pouco infantis, mas que são parte imprescindível da grandeza do trabalho. Os personagens são bem delineados e com características bem definidas (nas certezas e nas inseguranças de cada um). Ao final – sem nunca deixar a peteca cair, no quesito sagacidade e ritmo musical – se sai do cinema com o paladar gostosamente adocicado por uma bebida de tendência levemente adocicada e fresca, mas que, com o passar do tempo, perceberemos que é encorpada e de variadas sutilezas; que se revelarão aos poucos.
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