CAMINHO PARA GUANTÂNAMO:


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Original: Road to Guantánamo
País: EUA
Direção: Michael Winterbottom e Mat Whitecross
Elenco: Riz Ahmed, Harhad Harun e Afran Usman
Duração: 95 min.
Estréia: 17/11/06
Ano: 2006


Winterbotton sempre executando a urgência do digital


Autor: Cid Nader

Realizador extremamente produtivo esse tal de Michael Winterbottom. Também pudera: como defensor das tecnologias digitais, quando se utiliza delas para a confecção de praticamente toda sua obra, nada mais justo do que mostrar serviço – ao menos quantitativamente -; coisa que ele faz e não somente como composição simplesmente numérica. É um denunciador, também, das desigualdades sociais e procura fazer disso seu tema de repetição e assinatura de “ideologia cinematográfica” - mas já enveredou por outros assuntos, mais especificamente usando a sociedade britânica como pano de fundo, menos duros e mais festeiros, como em “A Festa Nunca Termina”, por exemplo. A bola da vez, o novo assunto “sério” a ser trazido à tona, resvala num fato real que aconteceu, envolvendo alguns rapazes ingleses de origem paquistanesa, para contundir mais diretamente a canela das “autoridades” americanas e inglesas quanto à sua omissão – ou incentivo, mesmo –, no caso, das atrocidades e crimes de guerra realizados na base de Guantánamo (uma prisão surreal localizada na ilha de Cuba – cabe lembrar, um país independente) contra prisioneiros da “Guerra do Afeganistão”.

Nunca é demais lembrar que tal “guerra” tem origem duvidosa nas suas razões – como se as houvesse, em qualquer momento histórico, praticadas por seres que deveriam privilegiar o dom supremo e diferenciado da inteligência – e a captura de prisioneiros e subseqüente traslado para as instalações na América Central geraram enorme inconformismo junto à comunidade internacional mais ligada à irracionalidade de toda a mosntruosa situação. No caso, então, de seres britânicos, acusados de fazer parte do Movimento Talibã, sem direito a defesa e sujeitados ao mesmo tratamento “diferenciado” declinado aos prisioneiros nativos da região conflituosa, a curiosidade se fez prato muito mais atraente ainda para um cineasta que procura fazer desses temas seus motes condutores. O filme mantém todas as características do restante da obra do diretor, com imagens obtidas basicamente com câmera na mão – por vezes, excessivamente nervosa -, informações escritas na tela para determinar momentos e locais, um jeitão de documentário – ele se utiliza bastante de imagens reais, mesmo – e música constante no decorrer do episódio, espertamente mantida num tom baixo que ganha mais potência somente nos momentos decisivos. Tais repetições de fórmula tem sido o principal motivo de aversão à sua obra, por uma parte da crítica – acusam-no, os mesmos, de aproveitar-se, além do mais, de tais temas “impactantes” para construir obra pouco sólida em intenções e viciada pelo uso recorrente de “ferramentas contundentes, utilizadas para obtenção de resultados somente estéticos”.

O resultado é um tanto irregular, principalmente pela opção – algo também recorrente - do diretor em posicionar seus personagens em dois setores absolutamente estanques e bem definidos (há os bons e os maus, ponto), mas com a importância e relevância do assunto retratado. Tem, por outro lado, suas virtudes, também: pontuado o tempo todo por declarações dos verdadeiros personagens retratados na ficção da história, emociona ao transportar-se ao Paquistão, com eles, para a concretização de uma cerimônia de casamento – fato que gerou todo o suposto mal entendido –; o que acaba por resultar em belas e emocionantes imagens de tradição e fé, que por si só já valeriam o ingresso.
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