INCURÁVEIS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Gustavo Acioli
Elenco: Fernando Eiras e Dira Paes.
Duração: 82 min.
Estréia: 10/11/06
Ano: 2006


De como exercitar estilo sobre o vazio, sobre o nada.


Autor: Cid Nader

Esse é um bom exemplo para abrir uma discussão sobre como encarar o cinema. Existe até certa disputa entre alguns cinéfilos e críticos sobre a força e a importância da forma e do conteúdo no cinema. Uma corrente bastante radical e estudiosa chega a prescindir do conteúdo, da essência, da palavra, do texto, se o formalismo do filme for corretamente executado e exuberante aos olhos "entendidos". Dizem que cinema é arte da câmera, do enquadramento, da montagem, da decupagem, acima de tudo – na realidade, a arte do diretor que consiga se resolver dentro desses quesitos, sem mais. Até concordo com a importância dessas colocações, mas imagino que – com raríssimas exceções, quando a opção estética é evidentemente o centro único da obra -, a ausência do conteúdo, por ausência de bom senso, são tão fatais e danosos quanto abdicar de um bom desenvolvimento formal. Não consigo, sinceramente, conceber o cinema como obra "simplificada" por um único modo de observação – modo de linguagem, bem entendido -, e gosto dele quanto mais complexo for na procura de uma composição mais intrincada e completa.

Gustavo Acioli caprichou – e bastante - na "construção" formalista de os "Incuráveis". Não dá para deixarmos de notar o primor e o rigor adotado pelo diretor, para demonstrar com um trabalho - em formato de longa - concluso o seu conhecimento no campo técnico da composição do cinema. Não notei um enquadramento mal realizado ou descuidado – foram todos evidentemente pensados e concretizados -, uma réstia de luz sobrando descuidadamente, uma movimentação de câmera excessiva – são tomadas sempre justas, que não desperdiçam imagens - ou um corte e emenda equivocados. O filme parece até uma aula de faculdade de como filmar – lembra trabalho de conclusão de curso realizado pelo melhor aluno. Mas, e daí. Algo soa falso quando adentramos no âmago da história, de teor batido e mal repetido. Tem aparência de trabalho de um sub-Jabor ou um sub-Khoury, embalando um sub-texto de Nelson Rodrigues (sim sei que é baseado num texto teatral, aliás, parece mesmo teatro com todo o seu exagero dialético). Parece que chocar – mas o que choca hoje em dia – com típica história de seres errantes seria suficiente para completar a dupla forma/conteúdo. Mas há um evidente vazio, um nada a dizer, de verdade – ouvi opiniões que louvavam a atuação do par central, até concordo, mas são performances que se perdem ante a não existência de texto relevante.

Chega a ser irritante ver aquele desfilar de neuroses sub-dramáticas por todo o tempo em que a película é projetada, e chega a ser mais irritante ainda ter a sensação – vejam bem que digo: "ter" a sensação – de que tudo não passa de pano de fundo para acorbertar ou legitimar um exercício de estilo. Aparentemente é um filme que vem somente em defesa do lado da discussão que legitima o cinema a partir unicamente do formato. O conteúdo? Se acharem que a trama passa bem, ok! O que eu posso fazer?
Leia também: