VOLVER:


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Original: Idem
País: Espanha
Direção: Pedro Almodóvar
Elenco: Penélope Cruz, Chus Lampreave, Carmen Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo, Leandro Rivera.
Duração: 121 min.
Estréia: 10/11/06
Ano: 2006


Almodóvar não consegue manter o nível


Autor: Cid Nader

Aparentemente, o grande Pedro Almodóvar atingiu o clímax antes do que seria imaginado em sua interessante e evolutiva carreira – evolutiva, bem falando, até duas obras atrás . Cineasta que surgiu num momento propício para quem desejava desafiar o estabelecido, numa Espanha pós-Franco, ansiosa de liberdade de opinião, de manifestações condizentes com as de um mundo em pleno processo de quebra de tabus e avanços ousados sobre a "caretice". Homossexual assumido, em pleno período de maior impacto e violência de uma nova doença que surgia - a AIDS - como uma espécie de castigo divino para os "pecadores" que teimavam em se manifestar sem medo e sem falso pudor, marcou toda sua primeira fase dentro do cinema com uma sucessão de filmes de baixo orçamento, alta ironia, desbunde evidente e opressivo em suas tramas e personagens; isso dentro, em contrapartida, de um espírito espanhol incontestável e indissociável. Parecia o máximo dos máximos, pois criava uma nova imagem, para um país de padrões rígidos e conservadores – em termos de costumes, tradição e família. Na seqüência, comprovando que tinha alma e capacidade de grande diretor, passou a realizar filmes de aparência estética mais compacta e bem estruturada, mais bem realizados, discutindo assuntos com o mesmo teor dos do início, mas com um evidente progresso na maneira de contá-los – os primeiros filmes tinham toda uma essência anárquica e debochada, típica de grupo formado por amigos irreverentes e com algo dizer, surgindo então em "Áta-me" um indiscutível "divisor de águas", a partir do qual evidenciou que havia atingido o início de uma maturidade interessante para o futuro de um cinema que ainda manteria força e coragem no recado a ser passado.

Quando citei um possível clímax, acima, referia-me a uma seqüência indiscutível em sua qualidade, que foi composta por: "Carne Trêmula", "Tudo Sobre Minha Mãe" e, principalmente (sua grande obra, em minha opinião), "Fale Com Ela". Filmes maiores, com complexos e intrincados motes, de resoluções fantásticas e bem planejadas, tramas inquestionáveis em sua beleza de concepção e de muito bom gosto no acabamento, e que passeavam por assuntos nada simples, nada cômodos. Parecia que o grande cineasta das últimas décadas havia sido descoberto e reclamava seu quinhão; seu reconhecimento. Só que veio "A Má Educação", bastante irregular, e que remetia ao início da carreira do diretor, principalmente pela imposição em contar uma história, que deveria ser aceita de qualquer maneira e sem contestações – um Almodóvar que contestava em favor de assuntos mais particulares. Um engano, um momento de engano? Dúvidas no ar. Mas surge agora "Volver" e novamente um filme menor nos é apresentado.

Ao contar uma história de mulheres – aliás, suas musas, e de quem extrai grandes atuações, como poucos –, de superstições, de mães mortas, tias solitárias e homens de pouca importância, todos os elementos essenciais que sempre utilizou em sua carreira estavam na mesa, e parecia que em terreno tão particular conseguiria manobrá-los tranqüilamente, em busca de seu objetivo. E não é que ele, novamente, não conseguiu atingir plenamente seus intentos? O filme se apresenta um tanto descuidado no modo como é montado, com situações que se atropelam para se fazerem críveis, por excesso, e não por naturalidade. Durante o seu desenvolvimento, mergulha em momentos de ostracismo e vagarosidade narrativa, com enganos óbvios de utilização do tempo e espaço, num fato que acaba por criar uma armadilha, onde o tremendo esforço de suas protagonistas acaba por aparecer como a possibilidade de salvação. Talvez pelo excesso em sua utilização, as mulheres de Almodóvar, no filme, passam a sofrer de falta de credibilidade em suas intenções, e isso fruto das más manobras do diretor e não por culpa delas. Aliás, das poucas virtudes do filme, resta a capacidade de representar e cumprimento de sua função no trabalho, por parte delas, como a maior.

Não é um filme horrível – longe disso -, mas a comparação à tríade citada acima lhe faz mal. Tem momentos emocionantes – novamente fruto de belas interpretações -: Carmem Maura embaixo da cama ouvindo Penélope Cruz, por exemplo, sem mais contar porque seria invadir demais as fronteiras do que imagino permitido. Porém, e pior, há um medo que resta: é que Pedro não consiga superar ou igualar tais grandiosíssimos momentos, sinta-se pressionado pela imperiosa necessidade de fazê-lo e passe a realizar filmes apenas impecáveis em suas concepções gráficas e recheados de "boas" intenções. Pouco para esse diretor espanhol.
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