OS INFILTRADOS:


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Original: The departed
País: EUA
Direção: Martin Scorsese
Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Alec Baldwin, Ray Winstone, James Badge, Martin Sheen.
Duração: 142 min.
Estréia: 10/11/06
Ano: 2006


"Os Infiltrados". Nem santos, nem heróis; humanos.


Autor: Cid Nader

A história dos Estados Unidos ganha mais um capítulo escrito pelo seu maior contador via imagens filmadas, que enriquecem – principalmente por saírem do "olho" desse gênio do cinema moderno -, com muita qualidade, o sincero tom das que são divulgadas somente pela narração ou escrita. Normalmente, seu cenário está mais restrito à cidade de Nova Iorque; ocasionalmente escapa dela e, nesse caso, optou por situar seu relato na cidade de Boston. O filme: "Os Infiltrados". O autor: Martin Scorsese.

Antes de qualquer coisa é pertinente lembrar que esse diretor americano – mais especificamente ainda, "novaiorquino da gema" -, de origem italiana, talvez seja um dos dois maiores em atividade na grande potência da América do Norte; junto com Clint Eastwood, fazem a grande dupla "pensadora" do cinema local. É diretor de alta tendência autoral. Com um modo "agitado" muito próprio de construir um trabalho e, principalmente, pelo tema recorrente e de teor épico - recorrente quando admitido como um trabalho verdadeiramente "desnudador" dos meandros mentais e elucidador da construção "seminal", que acabou por gerar a civilização que constitui a essência da Big Apple. A cidade tornou-se tema de obsessão para o autor, e quase toda sua obra gira em torno de momentos mais simplórios e comuns ou grandiosidades pontuais que fizeram - e fazem - sua história. Mas, como a cidade é a síntese da grande nação, deslocar seu foco para outras paragens quase perde o significado geográfico, fazendo lembrar que quando filma histórias de lá está pensando na formação de todo o país.

Falar dos italianos em alguns momentos - utilizando-os como protagonistas principais -, da mescla, na importância fílmica, entre eles e os irlandeses, em outros, ou desses últimos, como protagonistas principais - o que é o caso desse último trabalho -, parece que é falar de si mesmo para Scorsese, tamanha a naturalidade e falta de cerimônia com que trata as duas principais camadas de imigrantes que deram cara, alma, cor e sonoridade à cidade de sua infância. O diretor não poupou música a esse filme, todo recheado de canções, por vezes mais facilmente audíveis, por outras como um sussurro murmurado, como que não querendo dar chance a qualquer tipo de vazio que pudesse ameaçar a atenção do espectador. É praxe, em seus filmes, a utilização constante da música: obviamente um cacoete, um truque, mas que acabou por tornar-se uma de suas marcas registradas, sempre executadas com extrema maestria. Vale lembrar sempre – recorrendo a um trabalho anterior – que em "Gangues de Nova Iorque", num dado momento, parece que ele descobre a raiz da grande música norte-americana, ao fundir, espetacularmente, sons "negros" que partem de um local com outros sons, agora "irlandeses" – como num passe de mágica.

Scorsese não poupa, também, ação em "Os Infiltrados"; muita ação e sangue; violência. Para construir seus filmes de maneira "agitada" - como citei acima -, não imagina fazê-lo como um Deus dono da verdade única e do poder da manipulação de seus personagens em cima da mesa de montagem - coisa que faz como poucos, obviamente. Acaba, também, por fazer com que seus atores suem muito a camisa e valorizem com esforço o bom salário recebido. Toda a sua estratégia dedicada a não deixar espaços livres se mostraria inócua se não conseguisse, já nos momentos de filmagem, as cenas para a conclusão de seus intuitos – e, nesse caso, por mais que pareça redundância, a boa atuação facilita bastante. Seu filmes mais recentes, que encaram a proposta de continuação do desnudamento histórico da cidade – e do país - e de seus executores - com exceção de "O Aviador" -, têm cada vez mais ganhado cores e grandiosidade narrativa de épicos. Aparentemente, quando a construção de sua obra se voltou aos grupos étnicos de maneira mais evidente - por diferenciações mais incisivas e nítidas - o tom do pequeno filme (não menor, mas mais contido) deu espaço necessário aos espaços cênicos mais ampliados, que requerem ações mais grandiosas para seu devido preenchimento; sua devida utilização. E "Os Infiltrados" não escapa dessa tendência grandiloqüente cada vez mais imprescindível. O resultado final não "nega fogo": dispara nossa adrenalina e evidencia a violência como algo que pode render bons frutos artísticos. Mas o mais interessante, o fator diferenciador entre o grande diretor e o aventureiro, é que as vidas principais que protagonizam a história são recheadas de "passado", de incertezas, de características humanas - sangram. Aliás, essa é mais uma característica de Martim Scorsese: seus personagens não são super-heróis ou santos: eles têm vida e história; eles sangram.
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