A ÚLTIMA NOITE:


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Original: A Prairie Home Companion
País: EUA
Direção: Robert Altman
Elenco: Meryl Streep, Lily Tomlin, Garrison Keillor, Woody Harrelson, John C. Reilly, Lindsay Lohan, Kevin Kline, Maya Rudolph, Tommy Lee Jones, Virginia Madsen.
Duração: 105 min.
Estréia: 03/11/06
Ano: 2005


Um Altman mais conformado


Autor: Cid Nader

Quem se lembra de um diretor impregnado de imaginação e denúncias ao "status quo", que surgiu há mais de 30 anos revolucionando o cinema americano dito de exportação, mais para o comportado e de padrão quadrado na forma de realizar filmes; quem se lembra da denúncia afiada e bem humorada ao episódio Vietnã (MASH), ou ao excludente modo de pensar na união entre um homem jovem e uma mulher "madura" (Cerimônia de Casamento); quem se lembra na revolução formalista na maneira de montar um filme na mesa de corte, com vais-e-vêm sem nenhuma cerimônia ou aviso prévio (Short Cuts), revolução que criou uma escola de admiradores e imitadores; ou quem se lembra no modo sutil - inteligente é uma melhor definição – de denúncia social, de formalização cênica para revelar as diferenciações entre classes (Assassinato em Godsford Park). Bom, quem se lembra de todas essas matizes na história do cinema, pintando um único ser/realizador, lembrará automaticamente do já veterano Robert Altman.

Pois bem, o veterano senhor da indústria cinematográfica norte-americana, conhecido pelo modo inconformado de realizar cinema, parece que amoleceu – teria envelhecido, no mal sentido? -, lançou recentemente "A Última Noite", um filme/homenagem a um antigo programa de rádio, transmitido ao vivo por cerca de trinta anos e que se despede do público, numa última noite de transmissão, num fato gerado pelo avanço da modernidade movida pelo vil metal. Algo na formatação do cenário desse trabalho remete ao esquema encontrado para a realização de "Godsford Park", com paridade e similaridade ao que se encontra no teatro, para a resolução de várias cenas vistas sob um único ponto-de-vista. Isso até que resulta soluções inteligentes e bem "sacadas", emprestando um pouco de mérito ao filme – só como um exemplo, vale destacar a utilização de uma grua que passa de um cenário inferior para o superior no momento em que as duas irmãs cantoras, interpretadas por Meryl Streep e Lily Tomlin, saem de seu camarim e se dirigem ao estúdio. Mas os deméritos do filme ganham corpo, justamente aonde o diretor sempre se diferenciou dos outros: a essência narrativa – não importa o assunto – nunca teve cara ou comportamento conformado. Em "A Última Noite" a mesma toada e cantilena dominam os espaços, do início ao fim, causando uma sensação de desconforto e cansaço que se acentuam com o decorrer da película.

A única situação que poderia ser o diferencial ante o conformismo adotado para a narração da trama, um ser que não é desse mundo e comparece naqueles últimos instantes para cumprir uma missão "divina",é apresentado de maneira muito "beata" em quase todas as suas aparições – vale lembrar da genialidade de Frank Capra em "Aconteceu Naquela Noite", que emprestou muito humor e anarquismo ao mesmo tipo de entidade que freqüentou aquele trabalho. As atuações sim, essas são muito boas, com todos dando conta competentemente do recado – impressionante como o ator Kevin Kline, figura de galã e tudo mais, se dá bem em papéis cômicos. Mas qualquer filme deve ser um todo e, longe de ser ruim, esse, na sua totalidade, mais decepciona do que agrada.
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