O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cao Hamburger
Elenco: Michel Joelsas, Daniela Piepszyk, Germano Haiut, Caio Blat, Simone Spoladore, Eduardo Moreira, Liliana Castro e Paulo Autran.
Duração: 110 min.
Estréia: 03/11/06
Ano: 2006


"O ano em que meus pais sairam de férias": bom, mas poderia ser mais ousado.


Autor: Cid Nader

Temos, finalmente, um Daniel Burman no Brasil. Brincadeiras à parte, fica muito a sensação, após assistir a “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”, da proximidade, da paridade, que esse filme de Cao Hamburger tem com a obra do cineasta argentino. Cao enveredou por assuntos muito particulares aos que se refere Burman quando confecciona seus trabalhos: temos aqui um momento que se passa durante o regime de ditadura militar – aliás, fato bastante comum a toda a cinematografia realizada no país platino -, e temos esse momento ambientado no meio da comunidade judaica e seus membros. O diretor argentino, assumidamente, optou por retratar a grande comunidade que existe em Buenos Aires, em todos os seus filmes, o que não é o caso de qualquer diretor brasileiro, mesmo com um grande número de judeus e descendentes habitando tanto o Rio de janeiro como São Paulo. Cao é um realizador egresso dos curtas-metragens, das animações com massinha – seu “Frankstein Punk” (1986) foi revolucionário à época e referência para toda uma gama de jovens que optaram por seguir seus passos -, de onde derivou para a televisão tornando-se um dos principais responsáveis pelo grande sucesso infantil, a série “Castelo Rá-Tim-Bum. E foi justamente a série televisiva a responsável pelo primeiro longa do diretor, que resultou um trabalho sem muita definição de estilo ou capacidade mais particular, própria, de transferir para a tela grande – e por período mais alongado - a evidente “autoralidade” que demonstrara, até então, em outros veículos e outros formatos.

Talvez seja disso que padeça esse seu segundo longa-metragem, “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”: assinatura própria. O filme até que é bem realizado, deverá agradar várias camadas de público, cinéfilos e crítica, tem caprichadíssima reconstituição de época – 1970, ano em que o Brasil sagrou-se tri-campeão mundial de futebol –, com poucos erros a serem notados – só os mais chatos e “caçadores” conseguirão encontrá-los -, e conseguirá transportar a maior parte da platéia a um mundo não tão particular. Os que pertencem a esse mundo – o da colônia judaica de São Paulo -, demonstraram bastante reconhecimento durante a exibição em que estive presente, vibrando em momentos em que se reconheciam lá, e com o bom humor com o qual o diretor tratou as diferenças religiosas e as de raça. Por isso que digo ser bem realizado e também pelo justo clima criado para retratar o início dos 1970.

Mas alguns problemas ganham corpo durante o trajeto da trama: a maneira de falar dos personagens infantis é muito “correta” e aparenta forçada ante um desejado, e necessário, jeito mais informal e coloquial, um fato que perde importância com o decorrer da película – provavelmente porque nossos ouvidos acabam por se costumar com o tom. A falta de definição do diretor na maneira de filmar, que prefere adotar posturas padrões – câmera que trabalha em tomadas amplas quando realizadas externamente, ou que vagueia solenemente por pequenos detalhes quando “relembra” junto com os personagens -, ou imitando alguns modernismos, que já deveriam estar superados, quando filma com ela na mão, rispidamente e com trejeitos ligeiros no movimento, completados por uma edição “nervosa”. Resumindo: um trabalho bom, que poderia – ou deveria, pela origem de Cao Hamburger - ser mais ousado na forma e em algumas idéias. “Só bom”.
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