CRÔNICA DE UMA FUGA:


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Original: Crónica de una Fuga
País: Argentina
Direção: Adrián Caetano
Elenco: Rodrigo de la Serna, Pablo Echarri, Nazareno Casero, Diego Alonso, Guillermo Fernández, Rito Fernández, Leonardo Bargiga, Luis Enrique Caetano, Martín Urruty.
Duração: 103 min.
Estréia: 12/10/06
Ano: 2006


"Crônica de uma fuga": fugindo de uma crônica


Autor: Fernando Watanabe

Quem estiver mais atento à produção argentina que tem chegado até nós há algum tempo, já pôde concluir que o cinema portenho não é apenas sinônimo de filmes baratos, bem roteirizados, fragmentados em sua montagem e humanos. Lucrécia Martel e Pablo Trapero são felizes exceções. Em “Crônica de uma Fuga”, existe um outro tipo de cinema, de competente execução técnica, mas com limitações sérias de raciocínio político.

Curiosamente, “Crônica de uma Fuga” parece não ser uma crônica no sentido estrito da palavra, um termo que designa narrativas estritamente fechadas em seus mundos ficcionais. Apesar de selecionar um recorte muito específico dentre inúmeros possíveis sobre o tema da tortura praticada por órgãos oficiais na Argentina dos anos 80, o filme deixa entrever uma atração pela vinculação à história, evocando elementos extra-fílmicos, que reivindicam para o filme um valor social – político ao invés de restringir sua força a uma experiência sensorial de violência brutal.

Um letreiro inicial já manifesta este desejo: “este filme é baseado em depoimentos de duas vítimas da tortura...”. A partir daí, estabelece-se um elemento histórico-político-social a que deveremos recorrer até o fim da projeção. Escondido nos créditos finais - que a maioria dos espectadores não espera para ver - há outra dica: “os fatos aqui narrados aconteceram a diversas pessoas, mas foram incorporadas aos 2 personagens do filme”. A emoção, enfim, está quase que totalmente baseada na correlação que o espectador faz com a história daqueles acontecimentos passados. Um recurso que, de maneira pouco especial ou diferenciada, legitima a jornada de crueldade a que somos submetidos do início ao fim.

Tal legitimação histórica não está sozinha nesse desejo de engrandecer o filme; ela tem companhia da espetacularização estética. O clima de terror é instaurado pela imagem com cores mórbidas e lavadas, com muitas sombras e escuridão. Até mesmo uma chuva providencial na cena da fuga é utilizada (um clichê do espetáculo). O som não cessa de agredir, com seu tom grave e incisivo. Se os personagens torturados possuem um resquício de construção (passado e futuro, família, profissão), os torturadores são personagens unidimensionais, caricaturais (usam óculos escuros, bem vestidos e fumam sem parar). Uma estilização que esconde o verdadeiro horror.

Terminada a sessão, a sensação que se tem é a de um soco no estômago, mas sem a crueza e a comunicação mais direta que poderiam nos remeter à problematização efetiva dos fatos históricos. Os artifícios genéricos – sem querer aqui depreciar os gêneros clássicos – se encarregam de mediar a verdade e, paradoxalmente, de nos distanciar de alguma verdade. A dor da pancada logo passa. Indo até o fim em sua proposta de choque, “Crônica de uma Fuga” tende a não despertar outro sentimento em nós que não a piedade e a compaixão pelos injustiçados. A indignação, se existir, é canalizada contra os torturadores que nem sequer se constituíram enquanto seres humanos críveis. Tamanha é a simplificação do raciocínio, que a principal isca para o espectador é o fato de que sabemos – e os torturadores não, levando à conclusão de que eles são completos monstros sádicos – que o personagem do goleiro (Rodrigo de la Serna) é inocente, e mesmo que não haja a culpa, a punição é inevitável. E isso por causa do sistema político ditatorial que mostrou-se equivocado em seus métodos? Não. O filme não analisa a questão com maior profundidade, reduzindo tudo à uma dualidade entre os herói sofredores e os soldados maldosos.

Mas claro, pedir ao filme o que ele não pode - ou não quer - dar é no mínimo infantilidade, então explicito aqui que o meu ponto de vista é o de alguém que espera sempre algo mais do que um exercício competente e malicioso de linguagem cinematográfica. Também pode ser injusto exigir um naturalismo tão palpável que filmes como “O Pântano” já nos mostraram, apenas por “Crônica” vir da mesma nacionalidade. E essa espera pela dimensão humana das coisas certamente prejudica a recepção de um filme que, ao estilizar a crueldade e reivindicar para si um “engajamento” político mais esconde do que mostra. A verdadeira política não pode ficar apenas na intenção; ela deve estar concretizada também na forma.
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