DO LUTO À LUTA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Evaldo Mocarzel
Elenco: Documentário
Duração: 75 min.
Estréia: 06/10/06
Ano: 2005


Toma lá, dá cá


Autor: Fernando Watanabe

“Do Luto à Luta” já vem sendo divulgado como o documentário alto – astral de Evaldo Mocarzel. “À Margem da imagem” (2003) e “À Margem do Concreto” (2005) (que ainda não estrearam no circuito) são filmes que procuram dar voz aos excluídos por meio de uma adesão total do diretor às causas dos que estão à margem. Em do “Luto à Luta”, o objetivo se repete, travestido aqui de uma roupagem mais doce.

A leveza está nas entrevistas com os pais dos portadores da síndrome de Down. São cenas cujo conteúdo do que os pais falam dizem respeito ao sofrimento e à alegria decorrentes de terem filhos portadores da síndrome. Às vezes, os próprios portadores falam. E os pais olham. Este ato de um segundo personagem dentro do plano observando o primeiro que fala tem sua beleza. Pode-se deduzir uma infinidade de sentimentos desse olhares paternos/maternos: amor, piedade, carinho, e é aí que está a graça.

Uma graça interrompida quando os pais, médicos. “autoridades” no assunto começam a falar e aí o sentido nos é imposto. Nessas falas, o que entra em cena é mais uma vez a tentativa de dar existência aos excluídos por meio de suas vozes. Mais especificamente pelo conteúdo de suas vozes. A fisicalidade dos rostos e o ato de falar por si só (a performance) ficam relegadas a um segundo plano pelo uso dos personagens como veículos da mensagem que o cineasta almeja transmitir (o que analisaremos mais para o final desse texto). Ouvimos o realizador falando através da boca de seus personagens.

Assim como vemos Evaldo Mocarzel se fazendo imagem no momento em que o casal aspirante à cineasta recebe a câmera para filmar. Tal momento está muito distante daquilo que durante um tempo se chamou de “discurso da alteridade”, segundo o qual o cineasta deveria se pautar pelo o olhar do objeto filmado até integrá-lo ao filme. Exemplos significativos dessa proposta do documentário brasileiro são os projetos “Vídeo nas aldeias” (iniciado nos anos 90 e existente até hoje) e “Conversas no Maranhão” (1977). Dar uma câmera ao objeto e adicionar as imagens filmadas por ele na montagem do filme não é suficiente para concretizar a alteridade. Aliás, esta noção “generosa” já está datada, Andrea Tonacci, em seu novo filme “Serras da Desordem”, e Eduardo Coutinho nos anos 90 já perceberam o embuste e assumiram seus documentários como olhares puramente pessoais e de mais ninguém. O equipamento pertence a Evaldo Mocarzel. A montagem é realizada por ele e seu montador Marcelo Moraes. Quando tal casal filma Mocarzel sentado numa mesa, não temos senão a imagem mais representativa de todo o filme: Mocarzel se fazendo voz e imagem. Ora, aparecendo concretamente (como nesse plano), ora utilizando as pessoas como veículos, ora induzindo sentimentos e sentidos pela montagem.

Antes de tudo, dessa discussão estética, há a idéia que justifica as escolhas formais. A seleção por esse recorte temático já tem sua contradição. Falar sobre os portadores da Síndrome de Down poderia levar o diretor a múltiplos caminhos, mas a opção foi pelo óbvio: provar (na verdade, confirmar na mente dos espectadores e satisfazê-los) que este grupo de pessoas também é “normal”. Cenas com estes personagens jogando futebol, dançando, casando e falando de sexo, visam equiparar o mundo deles ao das pessoas sem a síndrome. “Olhem, eles são capazes de fazer tudo o que nós também fazemos”, uma mensagem não muito mais rica do que aquilo que nos informam matérias televisivas de um programa dominical global (não quero com isso depreciar a televisão, mas, sim, constatar o fato de que duas mídias diferentes como o cinema e a tv às vezes podem seguir lógicas iguais). Pegar os indivíduos tidos como diferentes pela sociedade e tentar provar que eles fazem parte do nosso mundo é a opção narrativa que acaba por confirmar o preconceito excludente.

Ninguém duvida do carinho que Mocarzel sente pelos personagens e da alegria efêmera que ele concedeu ao casal que sonha fazer cinema, ao dar a eles a ilusão de que estão fazendo imagens próprias e não as do diretor. Deixar os personagens dirigirem uma cena e gritarem “ação!” é uma encenação da encenação utilizada em prol da afirmação das boas-intenções do cineasta. Mas, esta caridade formal soa como compensação penitencial de uma idéia temática segregadora. É agradar os nativos de uma terra estrangeira a fim de usufruir do que eles podem dar. Um escambo. Um cinema católico. Um cinema de culpa.

O casal dirige a cena. Na verdade, dirigidos por Mocarzel. Que se deixa dirigir por uma bondade estética antiquada e uma idéia excludente que tenta trazer os “diferentes” para o nosso padrão de normalidade. Uma doçura difícil de aceitar.
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