A OITAVA COR DO ARCO-IRIS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Amauri Tangará
Elenco: Diego Borges, Pretinha.
Duração: 80 min.
Estréia: 29/09/06
Ano: 2004


Nossos modelos inatingíveis


Autor: Fernando Watanabe

O filme é bom ou ruim? Gostei ou não gostei? Das duas perguntas, fico com as segundas respostas, mas isso é pouco. Decretar uma bola preta para o filme e afugentar o espectador seria muito mais cômodo e nos livraria de um problema gravíssimo do qual fazemos parte. Afinal, escrevemos sobre cinema no Brasil, e abster-se de achar sentidos extra-fílmicos (para isso opto por falar pouco dos sentidos do filme) num filme nacional seria covardia.

Realizado no Mato Grosso do Sul, com parte da equipe vinda de Brasília e regiões adjacentes. Por este dado, confesso que nutri uma grande expectativa e curiosidade em relação a um filme potencialmente anômalo em relação à produção do eixo Rio/São Paulo. Os primeiros planos do filme já demoliram meu interesse: gruas (equipamento que faz a câmera “voar”) dramaticamente não motivadas, imagem com velocidade reduzida inflacionando de sentimentalismo um caminhar de moradores pobres da cidade interiorana, música tocante de efeito elevador, uso indiscriminado de lentes grande-angulares que distorcem a arquitetura da capital tida como opressora Cuiabá (como se isso fosse uma sacada esperta), entre outros excessos que pouco constroem. Um deslumbramento de quem parece achar que a batalha está ganha apenas por ter em mãos o caro aparato do cinema, legitimado pelo apoio de editais públicos e dinheiro estatal.

Estamos sempre com a sensação de se assistir a um roteiro filmado, tamanha a previsibilidade dos acontecimentos que, além de inverossímeis (o mendigo mentor do menino, a recusa do garoto em aceitar dinheiro de graça mesmo sabendo que sua avó pode morrer sem o dinheiro) são encenados por atores sufocados pelos estereótipos empobrecidos dos personagens.

Os erros de linguagem são primários, como um trabalho de faculdade de cinema. Isso não seria absolutamente ruim, pois o filme serve ao menos de exercício de aprendizado para o cineasta e a equipe. O que não posso aceitar é que tamanha mobilização de pessoas, de dinheiro, de energia e de vida, sejam utilizados sem embasamento de idéias, gerando o desperdício. Falta um pensamento de cinema no filme. Falta esforço intelectual e pesquisa. O que é sintoma do que é sonhar fazer cinema no Brasil: um sonho. Que, quando realizado, considera-se suficiente à obtenção dos meios para se filmar. Tamanha é a dificuldade para se fazer que o ato de se pensar fica relegado a um segundo plano.

Mas admito que minha expectativa errada prejudicou minha recepção ao filme. Esperava encontrar uma linguagem diferente e peculiar, vindo o filme de um pólo produtor supostamente não atrelado aos interesses e grandes esquemas do eixo. Algo como a linguagem primitiva (no bom sentido) e inovadora de um Ozualdo Candeias, ou Mazaroppi. Ao contrário, vê-se mais uma vez a inconsciência em relação à nossa precariedade (cinematográfica, econômica e social) e a ilusão de se atingir um “padrão de qualidade” (decupagem clássica, fotografia bonita e música sentimental), seja este visado no estrangeiro, ou no eixo Rio/São Paulo. O que comprova que a idéia de atingir algo que não somos está enraizada por todo nosso território, idéia esta baseada numa distinção entre os que sabem e os que não sabem fazer cinema. A expressão cinema, neste caso, baseada numa crença pomposa e elitista de que o cinema precisa ser “bem feito”. Acho que já está claro que não falo do Mato Grosso em específico, mas, sim, de como este filme é mais um exemplo do grosso da produção média nacional. Todas as fraquezas do filme (encenação pobre, obviedade de roteiro, decupagem deficiente, uso de “efeitos” sem motivo dramático) aqui ganham evidência pelos recursos financeiros parcos em relação ao que o filme se esforça para fazer. O curioso é que essas deficiências, em menor ou maior escala, são encontradas também em filmes “maiores” do eixo Rio/São Paulo, nos filmes da Globo Filmes e de nomes famosos do cinema brasileiro contemporâneo. A diferença é que estes possuem mais dinheiro para jogar fora e maquiar sua precariedade, enquanto A Oitava cor do Arco-Íris, de forma evidente, se debate para ser algo que nunca poderá ser.

PS: este texto pode decepcionar por fugir ao filme em si, deixando de interpretá-lo e analisá-lo mais minuciosamente. Porém, acredito ser mais importante em casos extremos como esse, se deter em circunstâncias e comentários extra-fílmicos.

PS 2: quando eu digo que esperava do filme uma linguagem “diferente e peculiar” ou “primitiva”, mais do que uma visão preconceituosa em relação às regiões fora do eixo Rio/São Paulo, esta minha expectativa era baseada na esperança. A busca por novos olhares não viciados até agora só tem encontrado exemplos em projetos de democratização audiovisual para comunidades excluídas e periféricas.
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