EU ME LEMBRO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Edgar Navarro
Elenco: Lucas Valadares, Arly Arnaud, Fernando Neves, Annalu Tavares, Valderez Freitas Teixeira, Fernado Fulco, Nélia Carvalho, Dantlen Melo
Duração: 108 min.
Estréia: 29/09/06
Ano: 2005


"Eu Me lembro" - relicário de recordações


Autor: Cid Nader

Edgar Navarro é um atípico exemplo de como deve se comportar um realizador de cinema. De filmografia quase obscura – diria eu: "obscurecida propositalmente por alguém que não imagina o brilho dos holofotes sobre si, mas sim as sombras" - tem seu maior reconhecimento, por pequena e exigente parcela da cinefilia, justamente em um filme média-metragem: "Superoutro" (1989). O restante de sua obra é de mais difícil reconhecimento até por quem já conhece o nome do diretor baiano: "Lin e Katazan" (1986), "Anil" (1990), "Heteros – A Comédia" (1994) e "Penitência" (1998). Portanto, não poder-se-ia dizer que é um diretor bissexto, mas, sim, ratificar o seu total anti-apelo, seu anti-glamour. Característica reconhecida, sim, se fez através de construções bizarras, "apelativas", onde o sexo é tratado como algo muito mais do que comum, muito além da naturalidade de se explicitá-lo simplesmente, quando insere cenas de teor altamente libidinoso ou recheado de tesão sem culpa.

Já se dizia que, apesar da aparente contra-corrente pela qual trafega, seu senso de apreciação mais íntimo sempre guardou uma inequívoca admiração pelo cinema de Federico Fellinni, com insuspeitas decaídas para uma construção de recordações e re-lembranças de tempos e lugares de infância. Com "Eu Me Lembro", a associação ao fantástico e exagerado cineasta italiano ganha poder e referência sem qualquer tipo de suspeita. Um belo filme, desavergonhadamente voltado ao passado, manejado e executado como um relicário de recordações.

Navarro não teve dúvidas e enxertou toda a película de reminiscências auditivas – nos tempos mais antigos que beiram o início dos 1960 e fim dos 50 – aditivando com um pouco mais de imagens subconscientes nos tempos de início de juventude – já com a televisão fazendo, às vezes, e substituindo o poder onipresente do rádio. O filme é cantado e contado através de jingles quase pré-históricos, programas de humor radiofônicos, rádio-novelas, músicas executadas por cantores egressos dos tempos do gramofone e a atenção, centrada especificamente ou a dispersão casual de um lar que se move e progride, requerida e obtida pelo poder das ondas sonoras. As sensações saudosísticas se insinuam o tempo desnudando a mente do diretor, que relembra também do passado como um tempo de valores inquestionáveis ditados pela igreja – também através das ondas-médias – com músicas sacro-infantis e rezas de forte apelo emocional para uma criança da época. Na realidade o desejo de Edgar Navarro é o de contar sua história desde os tempos mais remotos, sem deixar de lembrar a maneira como se constrói uma personalidade – em tempos de infância curiosa, inocente e descobridora – até os momentos em que todo o encantamento começa definhar com a chegada da idade adolescente, mais incomodada e de onde passam a brotar os hormônios "mal-cheirosos". Daí à juventude, onde tudo se questiona, onde o amor pelo sexo oposto toma espaço e ganha importância – injetando de novas cores a vida – mas também onde o racionalismo mais estruturado consegue indicar caminhos e percepções novas, possibilitando uma nova compreensão do pai – que já fora ídolo na infância e demônio na pré-juventude – como um ser que envelheceu e está na reta final.

O que se percebe, ao final, é que o filme se utiliza de recursos bastante comuns, como se fossem capturados de uma cartilha. O cinema é recheado de obras "cartilhinescas", normalmente com resultados obviamente sofríveis. Mas esse diretor baiano não é comum, não busca a luz fácil e chapada e, apesar de reverenciar descaradamente Fellinni, de se utilizar da aparentemente facilitadora maneira de estimulação dos sentidos através de símbolos inequívocos de uma época e do abuso na manipulação das gruas – que injetam, normalmente, leveza falsa às cenas -, não deixa também de procurar o choque com as cenas de masturbação do moleque que vai descobrindo a sexualidade, ou com os momentos de observação e interação por parte dos irmãos que também descobrem o apelo mais primal dos seres vivos. Principalmente, cria alguns belos momentos de construção, como quando coloca o garoto e a irmã atrás de um vidro fosco conjeturando o que deveria existir do outro lado, ou quando se posiciona diante da mãe dizendo que tem medo do "malamém", ou ainda quando evidencia a fragilidade do ser que envelhece e se posiciona a um palmo da televisão, sozinho numa sala de uma casa quase desabitada. É um filme de recordações, um ajuntamento, um relicário, e isso pode ser levado em conta como amortizador de possíveis excessos. Além de tudo, tem a bela homenagem ao cinema com uma "meta-intromissão" bonita e respeitosa em seu encerramento.

P.S.: incrível o poder que tinha a rádio Nacional do Rio de Janeiro até um pouco mais da metade do século passado, principalmente no Nordeste – sem deixarmos de lembrar que até meados dos anos 1960 a Bahia pertencia à extinta região Leste do Brasil e houve bastante reclamação com a nova formação das divisões e o deslocamento do estado para a região Nordeste (nota-se pelo filme que havia um certo "orgulho branco católico", muito mais notável do Rio para baixo).
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