ELA É O CARA:


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Original: She's the Man
País: EUA
Direção: Andy Fickman
Elenco: Amanda Bynes, Channing Tatum, Laura Ramsey, Robert Hoffman, Jonathan Sadowski, Alex Breckenridge, Julie Hagerty.
Duração: 105 min.
Estréia: 29/09/06
Ano: 2006


Ela é mala


Autor: Érico Fuks

Comecemos pela imortalidade. Shakespeare já enunciava em sua literatura clássica os conflitos entre o espaço que a sociedade distribui ao homem e à mulher. Em seu texto “Twelfth Night, or What You Will”, exploram-se os preconceitos e a intolerância por causa de uma travestida teatral. É bom lembrar que, nessa época do classicismo bretão, as mulheres eram proibidas de subir ao palco, cabendo aos homens a transexualidade facial, gutural e indumentária para a interpretação de personagens femininos. Tal tema gerou os recentes filmes “A Bela do Palco” e “O Libertino”, que mergulham na questão com uma certa profundidade, honestidade e conhecimento de causa, sem deixar de lado sua ironia decorrente. Mas vamos pular um pouco a parte dos versos alexandrinos e ir direto ao ponto: Estados Unidos, Século XXI, molecada, esportes. Viola (que nada tem a ver com o sumido atacante do Corinthians, mas sim um insípido personagem interpretado pela ilustre desconhecida Amanda Bynes), obcecada por futebol, fica furiosa ao saber que a sua escola cancelou as atividades do time feminino. Aproveitando que seu irmão gêmeo e sonso Sebastian (James Kirk) odeia a peleja e sonha em ser músico viajando escondido para Londres, ela se disfarça do mano bivitelino e vai para a escola tentar ingressar no time de futebol masculino. Daí pra frente surgem situações pra lá de previsíveis e desgastadas, como mulher-que-se-passa-por-homem-se-apaixona-por-homem, mulher-se-apaixona-por-mulher-pensando-que-a-outra-mulher-é-homem, e por aí vai. Claro que não poderiam faltar as obviedades das supostas “descobertas”, como as manjadas situações em vestiário. Tudo isso com um tempero adicional de coadjuvantes supostamente bizarros e anti-sociais, como o professor aloprado que é o sósia do político Enéas.

A proposta de “Ela é o Cara” encontra-se equivocada a partir de seus elementos básicos. Amanda Bynes é uma aspirante a Hilary Duff, sem o carisma e a conta bancária da comparada. Bonitinha mas descartável, ainda precisa comer muito hambúrguer com fritas pra chegar à promissora Lindsay Lohan, que veio se especializando em filmes do gênero e, com isso, hoje tem o timing perfeito pra desempenhar seus vários papéis de um personagem só. Bynes é durinha, obedece cegamente às ordens do estúdio mas não consegue extrair graça desses comandos automáticos. Nas cenas em que tenta copiar os estereotipados trejeitos masculinos, passa a impressão de que qualquer patricinha poderia desempenhar seu papel à altura. Seja por um problema de elenco travado, ou mesmo de burrice do diretor e produtor pra entender o roteiro, o fato é que essas situações de andar na rua coçando o saco, bater nas costas do colega em sinal de cumprimento, ou engrossar a voz pra se passar por uma pessoa machona ficam caricatas demais. Até mesmo o Mister Magoo seria capaz de reconhecer que há algo de estranho na personagem pseudo-lésbica. Falta muito da compreensão dos universos masculino e feminino e, em troca, o que se vê é pura e simplesmente o mimetismo raso. Esse tema, que já gerou Madame Butterfly, aqui é representado como uma brincadeirinha de recreio na sua perigosa busca pela despretensão. “Ela é o Cara” é tão contido quanto as protuberâncias mamárias esparadrapadas por baixo da camisa 10. Nem o mais prestativo dos gandulas conseguiria correr atrás dessa bola fora.
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